O Cearense Antônio, de Poranga, e a Síndrome de Diógenes.

“Seo Antônio, pra que é que o senhor junta tantas coisas assim?”

“Pra nada. Junto aí e depois toco fogo”.

Síndrome de Diógenes, você já ouviu falar nesta doença? Pouca gente já ouviu falar, mas com certeza muitos já viram ou ouviram falar de pessoas que juntam lixo e objetos inúteis acreditando que no futuro estes objetos serão úteis.

A síndrome foi batizada com o nome do filósofo grego que viveu no século IV a.C. Diógenes de Sinope. Diógenes vivia como um mendigo e dormia num barril. As características principais dessa síndrome são a acumulação de objetos sem valor, o isolamento social, a falta de pudor e de cuidados com a higiene pessoal e a recusa em receber ajuda. Os idosos que vivem sozinhos e em situação de miséria são os mais afetados pela síndrome.

Antonio Rodrigues da Silva - Poranga - CE

Há algum tempo tenho observado um senhor que perambula pelas ruas de Remanso, sempre carregando duas trochas de lixo à maneira dos antigos carregadores: uma em cada ponta de uma vara de madeira que apoia-se nos ombros. Todos os dias cedo da manhã ele sai catando lixo pelos tambores espalhados pela cidade e retorna ao final da manhã ou ao final da tarde levando tudo que acha importante para casa: LIXO.

Antônio de Poranga, CE.

Outro dia preparei a câmera fotográfica e resolvi visitá-lo em sua “residência”, no lado direito da BR-235, no sentido Remanso/Juazeiro, para tentar descobrir alguma coisa sobre a sua origem e o porque de viver da forma como vive. Houve um pequeno atraso e quando o encontrei já estava a caminho de Remanso, mas consegui fazer as primeiras fotos. – Posso tirar algumas fotos? Ele respondeu: – Claro, mas você deveria ter me avisado pra eu poder fazer a barba. Bom começo. Mas não deu tempo de conversar, porque ele estava com pressa.

Antonio e o Beiju.

Preparando o jantar: beiju.

A segunda vez, mesmo não combinando com ele, consegui encontrá-lo “em casa” de barba feita e fazendo beiju. – Boa tarde, posso conversar um pouco com o senhor e tirar algumas fotos? – Claro. – Como é o seu nome e de onde o senhor é? Meu nome é Antônio Rodrigues da Silva e sou de Poranga, no Ceará. Garanto que fiquei surpreso com o traquejo e com o palavreado do meu entrevistado. É um sujeito que aparenta ter estudado, mas que mistura um pouco o real com a fantasia. – O que o senhor veio fazer em Remanso? “Vim ganhar dinheiro. Sou mestre de obras, mas também trabalho como ajudante e sou pedreiro. Como a coisa não está boa eu tou gastando o que já ganhei por aí”. Pude observar o apego que o Sr. Antônio tem com as coisas que tem juntado. Tudo lixo, mas aos olhos dele tudo é luxo.

Sala de visitas - Frente da casa.

Vê-se que não tem a menor preocupação com o estado das coisas ao seu redor, mesmo tendo demonstrado uma certa vaidade quando falou sobre fazer a barba no outro dia, e as coisas são guardadas com uma certa ordem (a famosa arrumação bagunçada).

Cabana do Sr. Antônio, BR-235, Remanso-BA.

A “casa” do senhor Antônio é uma barraca que foi montada por ele. Não tive coragem de entrar e nem seria possível, porque, pelo que pude observar de fora, só há espaço para uma pessoa. Tem lixo para todos os lados, ficando apenas um estreito corredor que leva da entrada ao local onde se deita. A comida é preparada do lado de fora, como podemos ver na foto onde ele aparece preparando o beiju. Não fiquem preocupados… saí antes do beiju estar pronto, sem dar a menor chance de ser convidado para testar os seus dotes culinários.

O estiloso Sr. Antônio - Dia da terceira visita.

Tive que retornar uma terceira vez à “casa” do senhor Antônio, porque tinha perdido o papel onde fiz as anotações do nome e do local de nascimento dele. Desta vez tive que fazer uma aproximação maior da barraca, porque ele estava deitado. Ouvi vozes como se estivesse conversando com alguém, mas estava sozinho. Os odores que senti das outras vezes são perfumes perto do que senti nessa última visita. Foi de dar arrepios. Mas ao ver do Sr. Antônio tudo é normal, tudo luxo.

Foto satélite: Poranga-CE - Fonte: Google Earth.

Apesar de dizer o seu nome e o local do seu nascimento, não soube ou não quis dizer como veio parar em Remanso. Apenas disse que veio andando. Perguntei se ainda tinha parentes em Poranga, entretanto, aparentando uma tentativa de despistar, disse que não tem mais parentes por lá. Perguntei pra que ele juntava tanta coisa e parece que sacou o meu objetivo, cortando secamente: “Pra nada. Juto aí e depois toco fogo”.

Não sei se vou conseguir, mas ainda tenho vontade de fotografar o interior da barraca do Sr. Antônio. Vou criar coragem.

Não dá pra saber se o Sr. Antônio, como fez Diógenes de Sínope, tomou uma decisão consciente de viver em isolamento e na pobreza absoluta. O que dá pra ver é que tem todos os sintomas da Síndrome de Diógenes e que precisa de ajuda para voltar ao convívio dos parentes. Ou, quem sabe, está feliz assim?

Aos poranguenses: Se alguém de Poranga quiser ajudar a fazer contato com algum parente do Sr. Antônio é só enviar um comentário e colocar o e-mail para contato.

 

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7 comentários em “O Cearense Antônio, de Poranga, e a Síndrome de Diógenes.

    • Sou de Poranga, mais mora em São Paulo mais a família do sr. Antonio não é desconhecida, acho que seja necesário alguem tomar atitude e repatriar o senhor Antonio a sua terra natal, ele precisa de ajuda.

      • Manoel,à época deste post algumas pessoas lá de Poranga fizeram contato (acho que eram políticos); ficaram de enviar alguém para resgatá-lo e, aparentemente, houve até disputa para saber quem seria o autor do resgate. Infelizmente até hoje, 15/12/2012, ninguém mais voltou a fazer contato muito menos veio buscá-lo. Não o tenho visto pelas ruas e o obrigaram a mudar de local (não sei onde é o atual).

  1. tovinhoregis, acho que a historia tem um começo e um fim, que ainda não sabemos, trata se do sr Antonio Vanute, vou verificar junto as autoridades de poranga, solicitando uma resposta do sr prefeito atualmente responsalvel pelo os nossos poranguens,o que foi feito a respeito do assunto pauta, voltamos a nos conversarmos.

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