Comer é um ato de fé!

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Sartre dizia que a sociedade vive de uma “fé laica”, isto é, precisamos acreditar que a pasta de dente não tem veneno, que o avião tem combustível, que a ponte não vai cair, que o remédio tem a substância ativa na quantidade certa, assim por diante. A razão dessa fé é que não temos condição, como cidadãos, de averiguar caso a caso se o que nos dizem procede verdadeiramente ou se é uma farsa.

Os chamados “global players”, essas transnacionais que dominam ramos específicos do capital no mercado global, seguem o script comum do suborno, da compra, da deposição de governos democraticamente eleitos, da promoção da guerra, da destruição de países, da eliminação de populações inteiras em nome de seus interesses. As empreiteiras brasileiras, a indústria da carne e a Petrobrás estão nesse campo. Acontece que os “players” dos Estados Unidos e Europa querem o lugar que essas ocupam, ou ocupavam.

A carne podre nos prova que o agro é tech, que o agro é pop, que o agro é tóxico. Desconfiávamos, muitos nutricionistas nos diziam que isso é lixo alimentar. Agora não precisamos mais da desconfiança. Obviamente o marketing também mente.

Bom, não adianta sermos vegetarianos, porque nossas frutas e legumes contem também altas doses de veneno, a não ser os poucos privilegiados que podem comer um alimento orgânico.

São as contradições da alma e da prática capitalista. O puritanismo moreano destruiu os “players” do Brasil e nós, comprovadamente, ficamos sabendo que precisamos de uma agricultura agroecológica se quisermos comer alimentos sadios. Da forma como a indústria de alimentos está organizada, não temos saída.

A única vantagem de Moro e do golpe é que as crueldades desse país ficaram mais transparentes, inclusive as dele e dos golpistas.

Proibidos de discutir o Brasil.

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Estamos presos há quase dois anos pelo processo de golpe à democracia instaurado no Brasil. Nesse período discutimos fartamente a monumental hipocrisia da corrupção e ficamos proibidos de discutir questões fundamentais que afetam a vida de toda a população brasileira.

Uma dessas questões fundamentais é a dimensão do meio ambiente. Nesses últimos tempos o estouro de uma barragem destruiu a quinta maior bacia hidrográfica do Brasil (Rio Doce), a vazão do rio São Francisco foi reduzida para 800 m3/s, aumentou o desmatamento na Amazônia e o governo deposto criou o território do MATOPIBA, punhalada mortal no que resta do bioma Cerrado. Mas, ele é o “pai das águas”, local de onde as águas pendem para todas as maiores bacias hidrográficas brasileiras.

Portanto, continuamos perdendo nossa biodiversidade, nossas águas, nossos solos e aumentando a temperatura geral do país e do planeta. Curioso, para os economistas que pensam esse país, esses bens são externalidades ao processo econômico, não riquezas das quais dependemos para viver.

A recessão econômica brasileira nos proíbe de discutir novas energias, novas tecnologias, um novo modelo econômico e nos força a assumir a qualquer preço o desenvolvimentismo (crescimentismo) de uma economia que se mostra inviável por depender de algumas commodities cujos preços despencaram no mercado internacional. Então, somos obrigados a produzir mais e mais produtos primários como soja, minério de ferro, sem conter a erosão dos preços. Hoje, para se comprar um soft do Bill Gates – um pacote completo do office vale R$ 800,00 – precisamos exportar quatro toneladas de ferro, cujo valor não passa de R$ 200,00 no mercado das commodities.

Mas, um país não vive só de sua economia. Vive de seus valores simbólicos e bens intangíveis, como sua cultura, sua pluralidade, suas relações familiares e sociais. Essas são mais visíveis e mais imediatas. Tememos perder o emprego, a pouca renda dos programas sociais, o acesso à universidade de mais uns poucos, o acesso gratuito à saúde ainda que precário, a facilidade para adquirir uma moradia, os direitos dos trabalhadores aposentados, enfim, o pouco de cidadania que avançou nas últimas décadas. Sobretudo, vimos crescer o ódio e o preconceito entre nós.

Ainda mais, tememos perder o fiapo de democracia que nos restava para golpistas que souberam aliar a manutenção do próprio pescoço (Lava Jato) com interesses escusos do capital nacional e internacional privatista e excludente.

O problema de sempre é que não sabemos se o país sairá mais maduro dessa instabilidade e nem quando sairá. Golpe, autoritarismo e hipocrisia nunca produziram bons frutos.

Papa Francisco nomeia Bispo Coadjutor de Juazeiro (BA)

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O Papa Francisco nomeou nesta quarta-feira, 17/02, o Bispo Coadjuntor de Juazeiro.

Frei Carlos Alberto Breis Pereira (Frei Beto Breis), OFM, que assumirá como Bispo Coadjutor de Juazeiro, é Ministro Provincial da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil. Atualmente é Vigário Paroquial da Paróquia Sagrado Coração de Jesus – SALGADINHO, Convento São Francisco, em Olinda-PE.

Natural de São Francisco do Sul (SC), nasceu em 16 de setembro de 1965. Ingressou na Província Franciscana da Imaculada Conceição e fez o noviciado. Depois, transferiu-se para a Província de Santo Antônio, em Olinda-PE.

Realizou sua profissão religiosa em 10 de janeiro de 1987 e foi ordenado sacerdote em 20 de agosto de 1994. Estudou Filosofia no Instituto de Teologia do Recife e Teologia no Instituto Franciscano de Teologia de Olinda.  Licenciou-se em Teologia Espiritual na Pontifícia Universidade Antonianum de Roma (2005-2007).

Frei Beto Breis (Facebook).

Frei Beto Breis. Fonte da Foto: Página do Facebook.

Frei Carlos Alberto foi pároco em várias paróquias; mestre dos professores temporários; secretário provincial da formação e estudos; guardião e definidor provincial; vigário provincial; moderador da formação permanente; coordenador do serviço de formação da Conferência O.F.M. no Brasil.

Ano passado, durante coletiva de imprensa para anúncio da programação dos festejos da Padroeira de Juazeiro e da Diocese, Nossa Senhora das Grotas, o Bispo Diocesano Dom José Geraldo ja havia anunciado a sua aposentadoria para este ano.

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D. José Geraldo, bispo da Diocese de Juazeiro, Bahia. Foto: Tovinho Régis

Em comunicado distribuído à imprensa na manhã desta quarta-feira, 17/02, Dom José Geraldo fez o anúncio da nomeação de Frei Beto. “Não é a pessoa que eu tinha sugerido, mas, pelo currículo dele creio que trará grandes esperanças para a nossa Diocese e corresponderá certamente ao que nós pensávamos. É franciscano, deixando-nos muito à vontade às margens do Rio Francisco  (sic). Aliás, ele é originário da cidade de São Francisco do Sul, localizada na Ilha de São Francisco. Parece profético!”.

Tudo indica que Dom José Geraldo ainda permanecerá na condução da Diocese de Juazeiro até o mês de agosto, quando completará 75 anos. Na coletiva D. José Geraldo disse ainda que após a sua demissão deverá fixar residência em Juazeiro, cidade que o acolheu como se fosse um filho da terra.

Os amigos de Frei Beto o saúdam pela nomeação. Eu destaco o comentário de Manoel Torquato: “Bispo!!!! Que massa!!! Viva a igreja progressista!!! Parabéns meu amigo!!! Quando tiver passando por Juazeiro passo aí pra lhe dá um abraço!”.

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Comentários na página pessoal de Frei Beto no Facebook.

Boas vindas ao Frei Beto e que Deus o ilumine nessa nova e dura jornada na Diocese de Juazeiro.

BISPO-anuncioD. Fernando Saburido, arcebispo de Olinda e Recife, em companhia de Dom Genilval Saraiva, Bispo Emérito de Palmares-PE, fizeram o anúncio a Frei Beto.

Fonte: ACI Digital e Diocese de Juazeiro

PS.: O bispo-coadjutor é um bispo-titular da Igreja Católica nomeado para ajudar e substituir um bispo, arcebispo ou um prelado no exercício das suas funções com direito a sucessão. Ele deve ser nomeado vigário-geral pelo bispo diocesano. Vagando a Sé episcopal, o bispo-coadjutor torna-se imediatamente o bispo diocesano.

Campanha da Fraternidade 2016: terminou o carnaval, ficou o Zika vírus.

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Quarta de cinzas começa a Quaresma. Vem de quarenta, isto é, o povo de Deus 40 anos no deserto, Jesus 40 dias no deserto antes de começar sua pregação.

O deserto é o lugar do nada, onde você está só com você e você só. Então, pode ser que aí, absolutamente desamparado, você se lembre de Deus. Portanto, biblicamente, deserto não é só um lugar geográfico, mas um lugar teológico. Você pode estar no meio de uma multidão e se sentir no deserto.

As Campanhas da Fraternidade sempre nos trazem temáticas de interesse maior do que a Igreja Católica ou outras Igrejas. Essa campanha é ecumênica (várias Igrejas), macro ecumênica (outras religiões) e para todas as pessoas de boa vontade (toda sociedade, mesmo os ateus com fome e sede de justiça). Para as Igrejas está no contexto maior do cuidado com a criação.

A proposta fundamental está no saneamento básico, que segundo a legislação brasileira compreende: abastecimento de água; coleta e tratamento de esgotos; manejo dos resíduos sólidos e drenagem das águas de chuva.

Só a Bahia tem um item a mais, que agora se revela fundamental, isto é, o controle de vetores, esses bichinhos que espalham doenças como mosquitos, baratas, ratos, helmintos, etc.

O Brasil já teve a SUCAM. Brincávamos que nos lugares mais remotos só íamos nós – pastorais sociais – e a SUCAM. Com esse organismo de saúde pública, tínhamos posto sob controle grande parte das doenças transmitidas por vetores como chagas, dengue, malária, etc. Foi só abandonar o campo de luta que elas voltaram com toda intensidade.

O Prof. Moraes, da UFBA, que esteve conosco na elaboração dos fundamentos do texto base da Campanha, escreveu em outro livro que há um século 45% de nossas mortes eram por doenças infectocontagiosas como varíola, malária, etc. Hoje correspondem a apenas 5%. Mas, se o descuido e descaso continuarem, sabemos que voltarão a ser de grande porte. Afinal, àquela época éramos 40 milhões de brasileiros, 80% vivendo no meio rural e nossa média de vida era de 35 anos de idade. Hoje somos 200 milhões, 80% nas cidades e nossa média de vida está em torno de 75 anos da idade.

O bom é que hoje temos um Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB), uma legislação e uma política de saneamento, além do que cada município deve elaborar seu Plano Municipal de Saneamento (PMSB) se quiser receber dinheiro público para aplicar em seu território. A proposta federal é investir aproximadamente 500 bilhões de reais em 20 anos e, nesse prazo, sanearmos o Brasil. Será que dessa vez sairemos da insalubridade?

O plano deve ser integral (todas as dimensões) e universal (meio urbano e rural).

Pergunta chave: seu município elaborou esse plano municipal? O prazo de entrega era o final de 2015. Portanto, chamem os vereadores, os prefeitos, o Ministério Público, mobilizem as comunidades, a mídia, façam o plano municipal acontecer.

Essa é a tarefa básica das pessoas, comunidades e do país inteiro. Não adianta ficarmos nos problemas, temos que avançar nas soluções.

Um país sem saneamento não é civilizado, multiplica as doenças e passa vergonha internacional. Os Estados Unidos liberaram os atletas olímpicos que não quiserem vir ao Brasil por medo do Zika vírus.

 

As brumas de Remanso

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Nesta sexta-feira, 04/12, Remanso viveu um dia atípico, com um nevoeiro leve, mas que fez a cidade mudar a sua paisagem e fez desaparecer as montanhas que pintam o cenário nos dias normais. E isto numa temperatura de 35° C. Todos que encontrava pela rua me diziam: “Pensei que estava ficando cego”, ou “Nossa eu achava que eram meus óculos que estavam embaçados”. Vejam as fotos e digam se não estamos vivendo mementos de “as brumas de Remanso”:

Nada vale a pena quando a alma é pequena.

00_Coluna_do_GogoRoberto Malvezzi (Gogó)

O que mais chama a atenção da direita que está nas ruas é sua alma pequena, a incapacidade de enxergar o outro, o olhar narcisístico que só enxerga o espelho.

Aliás, essa é a essência de ser de direita, não enxergar ninguém mais além do próprio umbigo.

Em qualquer país do mundo que se chega, os cidadãos gostam de falar de suas conquistas, inclusive da justiça social. Só aqui o fato dos pobres saírem da miséria, de participarem um pouco mais dos frutos do trabalho, de conquistar bens básicos como água, alimentação, moradia, sem falar na energia, no telefone, etc., gera tristeza e ódio nessa população que está nas ruas.

Não há em seus discursos um único gesto de solidariedade, uma única palavra de reconhecimento pelas conquistas que as populações mais marginalizadas desse país fizeram nos últimos anos.

Os problemas desse governo são muitos, a corrupção é um deles, mas não o único e nem o principal. Os juros do Brasil devoram nossas riquezas, por eles há multidões que perdem muito e poucos banqueiros e especuladores que ganham uma fábula. O insuspeito Benjamim Steinbruch calculou que de 2013 a 2015 o Brasil pagará 1,038 trilhão de reais de juros (“Você Sabia?” UOL, 11/08/2015). O que é o dinheiro da Lava Jato diante dessa fábula de recursos públicos transferidos para os especuladores?

Além do mais o combate à corrupção é farisaico e seletivo, até porque há outros escândalos como o da Suíça, dos Zelotes, que flagrou gente da mídia, donos de meios de comunicação, jornalistas, apresentadores de TVs, artistas, gente do meio jurídico. Mas, esses parece que podem fazer o que fazem.

Portanto, o combate à corrupção acaba sendo apenas um pretexto – além da monumental hipocrisia – para a direita que vai às ruas pedir impedimentos e retorno do regime militar.

Lembrando e invertendo Fernando Pessoa, “nada vale a pena quando a alma é pequena”.

Propina ou doação, tanto faz…

Roberto Malvezzi (Gogó)

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O PT tem bloqueio para fazer autocrítica e admitir seus próprios erros. O problema fundamental não é se o dinheiro das campanhas foi doação ou propina, mas o fato de mergulhar em fábulas de dinheiro privado para ganhar eleições. Antes que legal, é um problema ético e político.

Para a eleição de 2014 o PT recebeu 147 milhões, PSDB 82 milhões, PMDB 76 milhões, PSB 32 milhões, PP 17 milhões, PR 11 milhões, DEM 7 milhões, PC do B 6 milhões, assim todos os partidos, até chegar aos menores (“Quanto cada partido recebeu das empreiteiras da Lava Jato”, congressoemfoco.uol.com.br).

É uma lástima ver pessoas como Moro, gente do Ministério Público, Polícia Federal, gastar meses e meses para tentar discernir se o dinheiro das campanhas foi doação ou propina. São vítimas do legalismo que sempre moveu esse país. Desculpem a sinceridade, mas falta a esses homens a compreensão da formação social e histórica do país, de como a corrupção sempre se constituiu na privatização do Estado brasileiro. Doação ou propina, tanto faz. Quem recebe, uma vez eleito, terá que pagar com obras ou outras benesses. Portanto, falta-lhes um pouco de Raimundo Faoro.

As empreiteiras impõem a agenda de obras no Brasil. Algumas claramente inúteis – Mané Garrincha, estádio de Manaus, etc. –, outras duvidosas – Transposição, Belo Monte, etc. – e que muitas vezes ocupam o lugar e a verba de obras necessárias, como é o caso do saneamento básico, das adutoras, do transporte público urbano, da energia eólica e solar, ou investimentos em educação e saúde.

O que está estampado na mídia tradicional todos os dias – é uma tortura abrir esses jornais e revistas e essa ser a matéria constante há meses – alimenta esse moralismo típico dos fariseus modernos, que coam mosquitos e engolem camelos.

A reforma política proposta pela sociedade civil poderia pôr algum limite nesse poço sem fundo, mas Cunha assassinou a reforma política.

O que resta aos brasileiros de bom senso nesse momento – para além de todos os partidos – é salvar o fiapo de democracia que temos e não perder as conquistas sociais.

Mudanças estruturais profundas, mais uma vez, foram para as calendas gregas.