Um Paulista Nordestino

Roberto Malvezzi (Gogó)

Há quase 40 anos sai de São Paulo e vim morar no Nordeste, em Campo Alegre de Lourdes, extremos da Bahia com o Piauí. Vim com um grupo de amigos e todos estamos por essa região até hoje. Devo minha vida a Dom José Rodrigues e à Diocese de Juazeiro, que nos acolheram àquela época e que nunca vacilou uma vírgula na defesa do povo e de seus direitos.

Foi a melhor decisão de minha vida. Vim para ficar três anos e estou há quase 40 anos.

Era a realidade do Nordeste ainda de Luís Gonzaga, com fome, sede, miséria, mortalidade infantil e saques. Hoje essa realidade está superada, ainda com muita pobreza, mas não mais a miséria. O IDH do município que era de 0,27 em 1990, em 2010 já era de 0,56. Portanto, ainda não atingiu o índice de 0,60 quando se sai da pobreza, mas já atingiu acima de 0,50 que está acima da miséria. Em muitos municípios já está superado inclusive o índice da pobreza e a população já está num padrão digno de vida aceito pela própria ONU.

Políticas simples de captação de água de chuva para beber e produzir, a defesa da terra e territórios das comunidades, energia elétrica, melhora das moradias, melhoria nos transportes, chegada da telefonia, da internet, tantas coisas básicas que nosso povo passou a ter direito. E a vida melhorou.

Hoje sabemos que o futuro energético do Brasil passa pelo Nordeste, principalmente a eólica e solar, já que nossos rios perdem forças e não garantem mais a segurança energética do Brasil.

Há ainda o detalhe que o Brasil todo depende das chuvas trazidas pelos rios voadores que vem da Amazônia. Portanto, sem Amazônia o Sul e Sudeste viram deserto e sem o Nordeste também virão os apagões intermináveis.

Todas as afrontas feitas ao povo nordestino nessa eleição doem na alma, por serem injustas, caluniosas e criminosas, pior, baseadas na estupidez e na ignorância.

Nesse momento da história, contudo, eu digo que “viva o povo do Nordeste”, por suas lutas pela justiça, pela superação das necessidades básicas, por seu voto consciente e por ser o grande reservatório energético desse país.

O futuro do Brasil passa pelo Nordeste e pelos Nordestinos.

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A Conjuntura Política na Reta do Primeiro Turno

Roberto Malvezzi (Gogó)

É bom considerarmos os elementos desse jogo complexo que são as eleições brasileiras de 2018, no momento atual do Brasil e do mundo.

  1. Do presídio Lula mostra toda sua força. Quiseram eliminar a figura de Lula prendendo-o, condenando-o, impedindo sua candidatura e eleição. Entretanto, do presídio ele leva seu candidato ao segundo turno, tudo indicando que será o novo presidente. O que seus algozes não conseguiram compreender – e jamais conseguirão – que um preso político tem mais força que um candidato comum.
  2. A pulverização do PSDB e aliados. O preço do golpe é a destruição eleitoral do PSDB. Não sobrou Aécio – teve que descer da presidência para ser um deputado federal – Alckmin, Serra, ninguém. Com propostas voltadas exclusivamente para o mercado, o PSDB mostra que não tem projeto nenhum para o povo e é dissolvido pelo voto popular. A parcela mais civilizada do PSDB vai com o projeto mais inclusivo no segundo turno. 
  3. A emergência do nazifascismo. O Brasil tem tradição autoritário desde seu nascimento. A escravização dos índios e dos negros faz com que esse país seja moldado até hoje pela mentalidade escravocrata, que também se traduziu nos coronéis, nos golpes militares, na aversão da burguesia ao povo brasileiro. Mas, agora, uma parte realmente nazifascista põe seu rosto às claras.
  4. A reação das mulheres. Esse levante feminino repercute no mundo inteiro. Talvez seja o maior movimento feminista da história da humanidade. Excluídas, ultrajadas, ofendidas, humilhadas por uma chapa presidencial militar, as mulheres reagem com orgulho e autoafirmação. As manifestações ocorrem por todo o mundo e tem apoio de mulheres famosas e comuns do mundo todo, até porque o nazifascismo é uma ameaça universal. Esse fato é novo e deverá permanecer na sociedade brasileira até que tenhamos condições mais iguais para todos os gêneros.
  5. Estão em jogo apenas dois projetos de país. Embora com nuances diferentes, estão em jogo apenas dois projetos de pais, isto é, um mais inclusivo e outro excludente. O primeiro pensa o Brasil para todos, o segundo pensa o Brasil apenas para os já bem estabelecidos. Eles estarão em confronto direto no segundo turno.
  6. As igrejas como novos currais eleitorais. A metáfora do “rebanho de ovelhas comandadas por um pastor” nunca foi tão verdadeira, mas pelo avesso. Há informações seguras que pastores recebem uma carta com os candidatos que deverão apoiar. Um bilionário pastor, que vive nos Estados Unidos, apoia claramente a chapa militar. É bom lembrar que as teocracias sempre foram a base das piores ditaduras. Há movimentos dentro da Igreja Católica com postura semelhante. Entretanto, outras igrejas, muitos bispos católicos, já disseram abertamente que esses homens não os representam. Até onde o povo obedece a esses pastores só as urnas dirão. Esse é um fator que está presente nessas eleições e estará por muito tempo ameaçando a sociedade brasileira.
  7. O triunfo da civilidade. Apesar de todos os percalços a maioria da sociedade brasileira aponta para um caminho de convivência civilizada, evitando a loucura e a barbárie. É hora de cada um que se pretende civilizado dar seu voto e apoiar ostensivamente a defesa de um Brasil para todos.

Aécio seria o presidente

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Não tivesse aplicado um golpe no povo brasileiro, hoje Aécio seria o presidente. O governo Dilma estava complicado, por circunstâncias e por erros. Então, bastaria um pouco de inteligência política a Aécio e ao PSDB, aguardando democraticamente o momento certo, hoje ele seria presidente eleito pelo voto popular.

O resultado do golpe é um povo destroçado, um Lula preso e maior que todos seus adversários juntos e golpistas reduzidos a pó. Pior para o golpe e golpistas: da cadeia Lula vai eleger seu sucessor.

Não sei se a direita brasileira vai aprender um dia a respeitar a vontade popular. Falo da direita, não da extrema direita, com o Coiso. Penso na família Marinho (Globo), Frias (Folha de São Paulo), Civita (Abril), Mesquitas (Estado de São Paulo), a burguesia do Judiciário, do empresariado nacional, dos militares e até da classe média alta brasileira. Será que a lição que golpes não compensam, nem mesmo para a direita, será devidamente aprendida?

Aos que comungam a luta da civilidade contra a loucura total, vamos descartar o discurso fácil do voto branco, do voto nulo. Eles favorecem exatamente os que vão ganhar. O voto é sempre um instrumento limitado, mas nunca inútil. A escolha de bons candidatos para todos os níveis (Deputado estadual, federal, senador, governador e presidente da república) pode ajudar na defesa das políticas públicas e de um país mais pacificado, ao menos mais democrático.

Aproveitemos o momento favorável para recuperar ao menos parte da convivência social que foi reduzida a cinzas pelo golpe contra o povo brasileiro, consumado em agosto de 2016.

Não temos tempo para vinganças, mas é a hora da justiça.

A greve de fome é prática dos moralmente grandes

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Sete pessoas continuam em greve de fome há 21 dias pelo bem do povo brasileiro. Eles apenas querem que o Supremo Tribunal Federal, na sua prerrogativa, decida se a prisão em segunda instância é ou não constitucional. O atraso nessa decisão gera injustiças com pessoas concretas e gera também a instabilidade jurídica e política do país. Mais ainda, com suas fomes, protestam contra a volta intensa da fome no Brasil.

A greve de fome sempre foi arma de pessoas de extrema grandeza humana. Recorreram a ela Gandhi pela libertação da Índia, Luther King pelo fim do apartheid nos Estados Unidos, Mandela pelo fim do apartheid na África do Sul, índios Mapuche dentro da prisão pela liberdade de seus prisioneiros e pela defesa de suas terras, assim por diante.

Aqui no Brasil Frei Luiz Cappio fez duas longas greves de fome em favor da distribuição da água no Nordeste por adutoras simples e captação da água de chuva, contra o projeto faraônico dos imensos canais que favorecem mais às empreiteiras que ao povo necessitado de água.

A greve de fome é um ato violento, mas amoroso. Ela não agride fisicamente o adversário. A agressão física recai sobre si mesmo. Aos 21 dias dessa greve de fome, nossos irmãos e irmãs já estão com o corpo debilitado. O sofrimento pessoal se acentua e o risco de um colapso orgânico total pode acontecer a qualquer momento.

Porém, como dizia Gandhi, esse tipo de luta é para “colocar os adversários em condição moral inferior”. É isso. Essas sete pessoas em greve de fome dizem que o Supremo Tribunal Federal não cumpre com suas prerrogativas, joga pessoas na prisão antes que possam esgotar todos os recursos da defesa e jogam o país na instabilidade jurídica e política. Enfim, sujeitam qualquer brasileiro aos arbítrios da vontade individual de algum juiz, ou mesmo de um coletivo de instância menor.

Se pudesse pedir alguma coisa aos leitores desse texto, eu digo que rezem pelos que estão em greve de fome, valorizem sua atitude de extrema generosidade e grandeza, promovam alguma forma de solidariedade, afinal, estão expondo suas vidas pelo bem de todos nós.

OBS: Estão em greve de fome Frei Sérgio Gorgen, Rafaela Alves, Vilmar Pacífico, Jaime Amorim, Zonália Santos, Luiz Gonzaga (Gegê) e Leonardo Soares.

As boas coisas da paralisação dos caminhoneiros

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Roberto Malvezzi (Gogó)

A cidade está um silêncio.

As ruas estão desertas, bicicleteiros e pedestres podem andar à vontade.

O ar está limpo.

Não há ruídos para perturbar nossos ouvidos

Não há gás na cidade, muita gente cozinhando com churrasqueira, panela elétrica, fogão solar.

Não há postos com gasolina e os carros estão nas garagens.

Começa faltar de tudo nos mercados e supermercados, mas os hortigranjeiros que vem do interior estão passando em nossas portas, também galinha caipira, bode fresco, peta, ovos, etc. Portanto, fome ainda não chegou por aqui.

Aqui é uma região produtora de hortigranjeiros, a exportação está bloqueada, prejuízos de 570 milhões de reais segundo a VALEXPORT. Em compensação, estamos comendo quase de graça as frutas de exportação que antes nem passavam pelo mercado local, como a banana de primeira que nunca se via por aqui.

Sabe que seria interessante aprender a lição e voltarmos a ter pomares nas chácaras, hortas nas casas, menos dependência de supermercado e dos shoppings?

Quem sabe dependermos menos de caminhões, com produções mais regionalizadas…

Quem sabe até pensarmos em ferrovias, trens com muitos vagões, apenas uma locomotiva, levando gente e mercadoria….

Quem sabe navegação de cabotagem pela longa costa brasileira, abastecendo grande parte de nossas cidades litorâneas…

Quem sabe mais energia solar produzida pelo povo, também eólica e assim menos dependência de combustíveis fósseis…

Quem sabe chegue a hora que não precisemos mais de petróleo – esse poluidor do ar, que colabora com o aquecimento global – e possamos viver de energias limpas. Como gorjeta nos livraríamos dos Pedros Parentes e dos analistas do mercado.

Quem sabe uma civilização menos predatória, menos consumista, mais sustentável, mais humana e realmente agradável de se viver…

Olha, esse paraíso nem parece tão impossível….

 OBS: Escrevo a partir do dipolo Juazeiro-Petrolina

O preço do golpe

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Roberto Malvezzi (Gogó)

O preço dos combustíveis é resultado da nova política que veio com Pedro Parente: a entrega do Pré-Sal, o preço atrelado ao dólar, a renúncia fiscal de 1 trilhão de reais em favor das petroleiras que se apossaram do nosso petróleo. Ainda mais, o preço atrelado às variações internacionais do mercado pode subir todos os dias.

Mas, o mundo especulativo tende a esquecer a economia real e tudo que parece sólido em poucos dias se desmancha na bomba de gasolina. Espremido pelos preços, os empresários de transportadoras puseram seus caminhões para bloquear as pistas. Em poucos dias o país pode ficar desabastecido de combustível, alimentos, gás de cozinha, remédios, etc. Tudo que depende de transporte pode travar, inclusive as companhias aéreas que dependem do querosene para abastecer suas aeronaves.

É só nesses momentos que as pessoas entendem que o mercado é uma abstração, que pode muito, mas não pode suprir as necessidades básicas da economia real.

Mas, esse é só o começo. Um país golpeado, que volta todas as suas políticas para satisfazer o mercado e sacrificar o povo não tem a mínima viabilidade. Aí não adianta ter juízes, empresários, mídias, multinacionais e generais pressionado nos bastidores. Milhões de insatisfeitos inviabilizam qualquer governo.

É só a economia real que abastece as necessidades cotidianas de um povo. Ou quem manda nesse país se reconcilia novamente com o povo, refazendo as políticas nefastas que sacrificam a população, ou iremos ao caos sem que haja qualquer possibilidade de um salvador da pátria.

Lula nos livrou dos generais

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Lula nos livrou dos generais, ao menos por hora. Sua prisão sacia o rancor da classe média, o interesse dos empresários, a vingança da velha mídia (Globo, Folha, Veja, etc.), a ética hipócrita de juízes e promotores, principalmente, a honra dos generais.

Mas, o problema é que a questão não está resolvida, o golpe ainda não fechou. É preciso julgar o mérito dessa questão, isto é, se a prisão em segunda instância vai ser sempre automática ou vai depender do Supremo Tribunal Federal a última palavra, como está na Constituição. Então, o Supremo terá que decidir novamente sobre a questão.

Mais uma vez a mídia, uma parte dos juízes e promotores, a classe média e os generais vão pôr a espada no pescoço do Supremo, particularmente da ministra Rosa Weber, que tem suas convicções, mas não tem coragem de enfrentar essa turba. Parece que a questão será pautada para Setembro.

Na Quaresma, para nós cristãos, sempre volta aquela frase de Caifás: “é preciso que um só homem morra por todos” (João 11,45-46). Jesus era o bode expiatório da sede de rancor do povo e das autoridades de Israel, sobretudo, o pavor de perder ou dividir o poder. Pilatos vacila, tem até pena de condenar aquele inocente, mas, temendo o povo, o entrega para ser crucificado. Esse exemplo não serve apenas como metáfora, mas tem sua pertinência histórica, já que o bode expiatório veio antes de Jesus, tornou-se Nele “cordeiro de Deus”, mas segue pelos meandros da história.

E nosso povo? “Sangrado e ressangrado, capado e recapado” (Capistrano de Abreu) age sempre com pragmatismo. O silêncio muitas vezes é a arte da sobrevivência. A espera pelo tempo mais oportuno. As artimanhas para sobreviver, como dizia Paulo Freire. Nossos índios, negros e empobrecidos conhecem essa arte como ninguém, por isso estão vivos.

O povo sabe onde está o poder e engole a seco. Rumina.

Quanto a Lula, vai para a cadeia – vai saber por quanto tempo! -, mas, estará para sempre nos pesadelos de seus algozes e na perigosa memória do povo.

O espantalho comunista

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Uma onda de ataques à CNBB, ao Papa Francisco, retoma o velho espantalho do comunismo. Tão agressivos quanto ridículos, não mereceriam muita consideração se não causassem certos estragos nas pessoas mais simples. Desconfio também que muitos cardeais, bispos e padres se escondam por detrás dessas declarações. Pelo menos um desses padres ostensivamente contra a CNBB e Francisco, prega retiros para seminaristas, faz formação do clero em certas dioceses e nunca vi nenhuma dessas autoridades se posicionarem contra suas atitudes.

No mundo de hoje, que eu saiba, apenas dois países se declaram comunistas, isto é, Cuba e Coréia do Norte. Nem a China, governada por um partido que se diz comunista, mas que desenvolve um capitalismo agressivo e predador na realidade, é questionada por seus parceiros econômicos, inclusive os Estados Unidos.

Então, de onde vem essa onda que alcança o imaginário popular e sempre desperta nas pessoas medos e até pânico?

O primeiro motivo vem pela história do combate ao comunismo, do qual a Igreja Católica sempre fez parte. Segundo, porque é conveniente ao mundo do capitalismo predador dos tempos atuais manter esse espantalho nas praças midiáticas. Francisco já declarou que o “capitalismo mata” e isso não agrada à burguesia católica.

Uma coisa é certa, Deus não é capitalista. Se fosse, teria criado mundos privados para que cada um vivesse no seu mundo. Entretanto, os bens essenciais à vida, como terra, água, ar e luz são de todos, embora alguns já privatizem a terra, a água e agora o ar e o sol pela captação da energia eólica e solar.

Não é da vontade de Deus que apenas oito pessoas detenham a riqueza de 3 bilhões de humanos na face da Terra, ou que cinco brasileiros detenham a riqueza de 100 milhões de brasileiros, ou que 9 milhões de brasileiros tenham voltado à miséria depois do golpe. Se algum cristão, incluindo os católicos, se esquecem dessa realidade, basta ler o capítulo 25 de São Mateus. Ali está bem claro o que Ele pensa.

Mais grave ainda, muita gente quer ir para o céu e vive preocupado por sua salvação eterna. É bom lembrar que no Reino de Deus não há propriedade privada – origem das classes sociais -, não haverá autoridades e nem instituições para mediar as relações, mas todos estaremos em pé de “igualdade” como irmãos diante do único Deus. E como diz a bíblia, “os pobres possuirão a Terra”.

Portanto, quem acha que vai ter cargos especiais e propriedade privada até na eternidade, no mínimo vai ter que passar pelo purgatório para aprender a ser gente. Se não quiser, já sabe qual o destino eterno que lhe aguarda.

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Bandido bom é bandido rico.

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Grande parte do povo brasileiro acha que “bandido bom é bandido morto”, diz uma pesquisa nacional recente. Mas é só quando o bandido morto for o bandido pobre. Se o bandido for rico é melhor que ele continue vivo.

Uma promotora pública que conheço há muito tempo me dizia: “estou cansada de condenar pobre. Não porque esses pobres não tenham cometido seus crimes, cometeram. Mas, só eles vão presos. Os criminosos ricos nunca consegui condenar nenhum”.

Então, o problema dessa parcela do povo brasileiro não é matar bandidos, é matar pobre. Aquele que trafica uma droga na favela, que rouba uns relógios e carteiras pelas ruas, que rouba um carro de luxo na avenida, assim por diante. Esses, quando pegos, são amarrados em postes, execrados e até linchados. Outros a polícia simplesmente fuzila. São quase 60 mil mortes por armas de fogo anualmente no Brasil, grande parte por execuções policiais, como diz a Campanha da Fraternidade desse ano. Claro, vez em quando há o reverso e os policiais também são mortos por esses bandidos.

Mas, quando se trata de helicópteros, aviões, caminhões com drogas, quando um banqueiro dá uma quebra no sistema financeiro, quando um político diz que “bota um aí que a gente possa matar antes de delatar”, tudo vale. Pode ter contas na Suíça, em paraísos fiscais, ter fraudado a receita, no máximo vai ter que repatriar alguma merreca.

Essa bílis da burguesia nacional contra o bandido pobre vem do tempo da escravidão, fato sobejamente conhecido nos movimentos e pastorais sociais, agora reforçado pelo livro de Jessé Souza.

Não há nesse entendimento, explorado por candidatos à presidência da República, nenhum laivo de justiça, da busca de um país melhor, realmente mais pacífico, onde todos os cidadãos possam andar na rua com tranquilidade, como acontece em países civilizados. Pior, há uma confusão intencional que pobre é sinônimo de bandido e rico é sinônimo de pessoa boa. Aliás, essa é a origem do termo, “pessoas de bens” (ricos) eram consideradas pessoas boas. E os bens que possuíam era a terra, escravos, bois, raízes como mandioca ou engenhos de açúcar. Tinham também seu exército particular de jagunços.

O Brasil não é civilizado, não há respeito pelos pobres, negros e índios, ainda não somos um povo e uma nação. Por isso nos guerreamos. Por isso, bandido pobre deve ser morto e bandido rico pode reinar à vontade sobre nós.

Violência, a parteira da história?

– C. da Fraternidade 2018 –

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Para Marx a violência é a parteira da história. É só por ela que o novo nasce.

Um cientista afirmou esses dias que a humanidade só conheceu a igualdade após períodos de grande violência, como a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que nessa guerra 47 milhões de pessoas perderam a vida, sendo 26 milhões de soviéticos.

Na natureza, principalmente na cadeia alimentar, os mais fortes devoram os mais fracos. Os jovens leões, quando conquistam o território dos leões mais velhos, lhes roubam as fêmeas e depois matam todos os filhotes do antigo rei do pedaço. É o “Struggle for Existence” (life) de Darwin. Malthus trouxe esse princípio para o convívio social.

O próprio Universo foi parido por explosões violentas e não é possível entender a formação do mundo sem ela. Os cientistas dizem que nós, os humanos, só estamos aqui porque o choque de um meteoro bloqueou a atmosfera por anos, eliminando a vida dos dinossauros, possibilitando que evoluíssem os mamíferos, portanto, chegando até nós.

Há quem pense que o Brasil, enquanto não conhecer um confronto sangrento, onde as mortes aconteçam aos milhares de ambas as partes, jamais será um país justo. Só assim a elite escravocrata, que continua no poder, passaria a respeitar o povo.

Entretanto, a violência mata 60 mil pessoas por ano no Brasil, a maioria jovens, desses a maioria negra, dessa a maioria do sexo masculino. É uma verdadeira assepsia social a cada ano para prevalecer os interesses dos escravocratas.

Estatísticas nos disseram esses dias que cinco brasileiros concentram a riqueza de mais de 100 milhões de compatriotas. Ainda mais, 1% de brasileiros concentra 81% da renda nacional, ficando os outros 205 milhões com a tarefa de dividir entre si os 19% da riqueza restante. Mesmo assim há quem defenda maior concentração de renda, de propriedade, de poder e que essa minoria seja cada vez mais defendida à bala. A violência estrutural é a mãe de todas as violências, já diziam os bispos católicos em 1968 em Medellin, Colômbia.

Na verdade, a violência é, sobretudo, o controle do poder. Um general estadunidense afirmou que o importante mesmo é o “complexo industrial-militar”. Os exércitos do mundo aqui encontram sua razão de ser. Em plena Campanha da Fraternidade o Exército Brasileiro ocupa o Rio de Janeiro e é apoiado pela classe dominante e a Igreja Católica local.

Mas, há uma outra linhagem histórica de luta pela paz. Muitos dos grandes pacifistas da humanidade morreram violentamente, não porque praticavam a violência, mas porque os violentos detestam a paz que é fruto da justiça. Jesus, Gandhi, Luther King, Chico Mendes, Dorothy Stang, todos foram vitimados por defenderem a paz e a justiça. Mas, eles e elas nos ensinam que ser pacifista nunca foi ser conivente ou omisso diante da violência estrutural e pontual. Denunciaram essas situações a tal ponto de terem suas vidas sacrificadas pela paz.

Espero que nossas comunidades e grande parte da sociedade brasileira seja capaz de ir fundo no debate sobre a violência nesse violento Brasil, particularmente em 2018, onde a violência declarada quer ocupar o poder central.

Não podemos perder de vista que o “golpe” – e todos os golpistas –  que deu sequência a esse Brasil violento que vem desde nossas origens.