O preço do golpe

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Roberto Malvezzi (Gogó)

O preço dos combustíveis é resultado da nova política que veio com Pedro Parente: a entrega do Pré-Sal, o preço atrelado ao dólar, a renúncia fiscal de 1 trilhão de reais em favor das petroleiras que se apossaram do nosso petróleo. Ainda mais, o preço atrelado às variações internacionais do mercado pode subir todos os dias.

Mas, o mundo especulativo tende a esquecer a economia real e tudo que parece sólido em poucos dias se desmancha na bomba de gasolina. Espremido pelos preços, os empresários de transportadoras puseram seus caminhões para bloquear as pistas. Em poucos dias o país pode ficar desabastecido de combustível, alimentos, gás de cozinha, remédios, etc. Tudo que depende de transporte pode travar, inclusive as companhias aéreas que dependem do querosene para abastecer suas aeronaves.

É só nesses momentos que as pessoas entendem que o mercado é uma abstração, que pode muito, mas não pode suprir as necessidades básicas da economia real.

Mas, esse é só o começo. Um país golpeado, que volta todas as suas políticas para satisfazer o mercado e sacrificar o povo não tem a mínima viabilidade. Aí não adianta ter juízes, empresários, mídias, multinacionais e generais pressionado nos bastidores. Milhões de insatisfeitos inviabilizam qualquer governo.

É só a economia real que abastece as necessidades cotidianas de um povo. Ou quem manda nesse país se reconcilia novamente com o povo, refazendo as políticas nefastas que sacrificam a população, ou iremos ao caos sem que haja qualquer possibilidade de um salvador da pátria.

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O espantalho comunista

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Uma onda de ataques à CNBB, ao Papa Francisco, retoma o velho espantalho do comunismo. Tão agressivos quanto ridículos, não mereceriam muita consideração se não causassem certos estragos nas pessoas mais simples. Desconfio também que muitos cardeais, bispos e padres se escondam por detrás dessas declarações. Pelo menos um desses padres ostensivamente contra a CNBB e Francisco, prega retiros para seminaristas, faz formação do clero em certas dioceses e nunca vi nenhuma dessas autoridades se posicionarem contra suas atitudes.

No mundo de hoje, que eu saiba, apenas dois países se declaram comunistas, isto é, Cuba e Coréia do Norte. Nem a China, governada por um partido que se diz comunista, mas que desenvolve um capitalismo agressivo e predador na realidade, é questionada por seus parceiros econômicos, inclusive os Estados Unidos.

Então, de onde vem essa onda que alcança o imaginário popular e sempre desperta nas pessoas medos e até pânico?

O primeiro motivo vem pela história do combate ao comunismo, do qual a Igreja Católica sempre fez parte. Segundo, porque é conveniente ao mundo do capitalismo predador dos tempos atuais manter esse espantalho nas praças midiáticas. Francisco já declarou que o “capitalismo mata” e isso não agrada à burguesia católica.

Uma coisa é certa, Deus não é capitalista. Se fosse, teria criado mundos privados para que cada um vivesse no seu mundo. Entretanto, os bens essenciais à vida, como terra, água, ar e luz são de todos, embora alguns já privatizem a terra, a água e agora o ar e o sol pela captação da energia eólica e solar.

Não é da vontade de Deus que apenas oito pessoas detenham a riqueza de 3 bilhões de humanos na face da Terra, ou que cinco brasileiros detenham a riqueza de 100 milhões de brasileiros, ou que 9 milhões de brasileiros tenham voltado à miséria depois do golpe. Se algum cristão, incluindo os católicos, se esquecem dessa realidade, basta ler o capítulo 25 de São Mateus. Ali está bem claro o que Ele pensa.

Mais grave ainda, muita gente quer ir para o céu e vive preocupado por sua salvação eterna. É bom lembrar que no Reino de Deus não há propriedade privada – origem das classes sociais -, não haverá autoridades e nem instituições para mediar as relações, mas todos estaremos em pé de “igualdade” como irmãos diante do único Deus. E como diz a bíblia, “os pobres possuirão a Terra”.

Portanto, quem acha que vai ter cargos especiais e propriedade privada até na eternidade, no mínimo vai ter que passar pelo purgatório para aprender a ser gente. Se não quiser, já sabe qual o destino eterno que lhe aguarda.

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Violência, a parteira da história?

– C. da Fraternidade 2018 –

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Para Marx a violência é a parteira da história. É só por ela que o novo nasce.

Um cientista afirmou esses dias que a humanidade só conheceu a igualdade após períodos de grande violência, como a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que nessa guerra 47 milhões de pessoas perderam a vida, sendo 26 milhões de soviéticos.

Na natureza, principalmente na cadeia alimentar, os mais fortes devoram os mais fracos. Os jovens leões, quando conquistam o território dos leões mais velhos, lhes roubam as fêmeas e depois matam todos os filhotes do antigo rei do pedaço. É o “Struggle for Existence” (life) de Darwin. Malthus trouxe esse princípio para o convívio social.

O próprio Universo foi parido por explosões violentas e não é possível entender a formação do mundo sem ela. Os cientistas dizem que nós, os humanos, só estamos aqui porque o choque de um meteoro bloqueou a atmosfera por anos, eliminando a vida dos dinossauros, possibilitando que evoluíssem os mamíferos, portanto, chegando até nós.

Há quem pense que o Brasil, enquanto não conhecer um confronto sangrento, onde as mortes aconteçam aos milhares de ambas as partes, jamais será um país justo. Só assim a elite escravocrata, que continua no poder, passaria a respeitar o povo.

Entretanto, a violência mata 60 mil pessoas por ano no Brasil, a maioria jovens, desses a maioria negra, dessa a maioria do sexo masculino. É uma verdadeira assepsia social a cada ano para prevalecer os interesses dos escravocratas.

Estatísticas nos disseram esses dias que cinco brasileiros concentram a riqueza de mais de 100 milhões de compatriotas. Ainda mais, 1% de brasileiros concentra 81% da renda nacional, ficando os outros 205 milhões com a tarefa de dividir entre si os 19% da riqueza restante. Mesmo assim há quem defenda maior concentração de renda, de propriedade, de poder e que essa minoria seja cada vez mais defendida à bala. A violência estrutural é a mãe de todas as violências, já diziam os bispos católicos em 1968 em Medellin, Colômbia.

Na verdade, a violência é, sobretudo, o controle do poder. Um general estadunidense afirmou que o importante mesmo é o “complexo industrial-militar”. Os exércitos do mundo aqui encontram sua razão de ser. Em plena Campanha da Fraternidade o Exército Brasileiro ocupa o Rio de Janeiro e é apoiado pela classe dominante e a Igreja Católica local.

Mas, há uma outra linhagem histórica de luta pela paz. Muitos dos grandes pacifistas da humanidade morreram violentamente, não porque praticavam a violência, mas porque os violentos detestam a paz que é fruto da justiça. Jesus, Gandhi, Luther King, Chico Mendes, Dorothy Stang, todos foram vitimados por defenderem a paz e a justiça. Mas, eles e elas nos ensinam que ser pacifista nunca foi ser conivente ou omisso diante da violência estrutural e pontual. Denunciaram essas situações a tal ponto de terem suas vidas sacrificadas pela paz.

Espero que nossas comunidades e grande parte da sociedade brasileira seja capaz de ir fundo no debate sobre a violência nesse violento Brasil, particularmente em 2018, onde a violência declarada quer ocupar o poder central.

Não podemos perder de vista que o “golpe” – e todos os golpistas –  que deu sequência a esse Brasil violento que vem desde nossas origens.

De Mandela a Lula

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Muitas vezes me pergunto se Lula tem as condições de se tornar um herói da Senzala brasileira como Mandela na África do Sul. Aquele pegou 40 anos de cadeia para ver sua causa triunfar, e não era nada mais humana que o reconhecimento legal de igualdade entre brancos e negros naquele país.

Estive em Soweto, que era considerado um bairro de Johannesburgo, mas na verdade era uma cidade com 2 milhões de negros confinados, que tinham que ter um alvará para sair do confinamento e reapresenta-lo ao voltarem ao seu gueto. Lá estava o Museu da Imagem e do Som do Apartheid, com cenas dantescas de lutas dos negros para conseguir seu simples direito à cidadania.

Os 40 anos de prisão de Mandela levaram os negros a celebrar sua liberdade um dia, ainda que tardia.

Todos que tem um mínimo de respeito pelos fatos sabem que Lula não é um comunista. Nem parece ter pendores para tantos anos de cadeia em função de uma causa. Sua proposta sempre foi um capitalismo mais inclusivo, traduzido na famosa frase que o “povo tem direito a três refeições por dia”. Foi o que fez.

Tivemos muito confrontos com Lula, na questão do São Francisco, Belo Monte, obreirismos da copa e das olimpíadas, etc. Mas, por beneficiar a vida do povo simples com água, energia, alimentos, melhoria da habitação, além do acesso de uma ínfima parte do povo às universidades, colhe todo ódio que os escravagistas de ontem e hoje lhe atribuem. Para os escravagistas, se for pelas mãos do Lula, nosso povo nem pode beber um copo de água limpa e comer um prato sadio de comida.

Já condenado em segunda instância, o dilema agora é se será preso, ou simplesmente impedido de concorrer às eleições em 2018. Se for preso, condenado a 12 anos de prisão, entrando na cadeia aos 72, estará eliminado dos processos eleitorais, ao menos como candidato. Foi condenado por ser suposto dono de um apartamento que nunca usou e agora por usar um sítio de um amigo.

Terá Lula a grandeza histórica de um Mandela, se for preso, de fazer de sua prisão um gesto histórico, superando o simples gesto político, no sentido de superar um país historicamente dividido entre a Casa Grande & Senzala? Só a história dirá.

Seus adversários ainda cometem a imbecilidade de perguntar o porquê após a condenação ele não cai nas pesquisas. O fato é que poderá eleger quem quiser de dentro da cadeia. Dessa humilhação, de perder para um prisioneiro, seus inimigos não têm como escapar.

 

OBS: Há uma cena de José Serra pisando num abaixo assinado contra a previdência. O que um homem pode fazer para acabar com sua biografia! Um bispo da cúpula da CNBB me dizia que sua maior decepção no golpe era exatamente o Serra. Talvez sua fúria se deva aquela frase de Kátia Abreu, quando lhe arremessou um copo de vinho na cara: “você jamais será presidente”.

 

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Na história ninguém ri por último

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Roberto Malvezzi (Gogó)

O golpe conseguiu quase tudo que queria, mas três pontos fundamentais ainda não foram lacrados, como diz a juventude.

Um deles é a reforma da previdência. Talvez ainda consigam, mas não está fácil, porque mexe com os interesses dos eleitores desses deputados e senadores, além de parentes e amigos. Mas, a aprovação dessa perversão é fundamental para atirar as pessoas nos braços da previdência privada, pelo menos é esse o objetivo da proposta. Pessoalmente, tenho dúvidas que uma classe média mais pobre e endividada vá recorrer a planos de saúde cada vez mais caros e precários. Conheço pessoas que pagam planos caros e, na hora que precisou de uma cirurgia, teve que desembolsar alguns mil reais por fora para que o médico aceitasse fazer o que já estava pago.

Segundo, não está fácil o controle do processo eleitoral via inabilitação de Lula. A condenação parece pronta. A prisão talvez não. Portanto, a inviabilização eleitoral, por conta de recursos e outros mecanismos, não parece garantida. A carta na manga é essa espécie de meio presidencialismo que o Gilmar Mendes tirou da cartola. Em último caso, fazer de Lula rainha da Inglaterra. A verdade é que preso ou solto, vivo ou morto, Lula estará na eleição.

Terceiro, o golpe não conquistou o coração do povo. Por mais que a mídia tradicional se esforce, por mais que tentem destruir a imagem dos adversários, por mais que haja propaganda do golpe por quem dele se beneficiou, o povo rejeita o golpe e os golpistas.

Curioso, o povo prefere Bolsonaro a Alkmin, a Aécio, a Golpista, a Meirelles et caverna. A história costuma ser cruel com os traidores. Não é que essas pessoas tenham qualquer preocupação biográfica, eles só têm bolso. Entretanto, na história ninguém ri por último, todo mundo tem seu dia final.

Da Ditadura Civil para a Militar

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Antes do golpe de 2016 sobre a maioria do povo brasileiro trabalhador ou excluído, já comentávamos em Brasília, num grupo de assessores, sobre a possibilidade de uma nova ditadura no Brasil. E nos ficava claro que ela poderia ser simplesmente uma “ditadura civil”, sem necessariamente ser militar. Entretanto, como em 1964, ela poderia evoluir para uma ditadura militar. Naquele momento pouquíssimos acreditavam que o governo poderia ser derrubado.

Já escrevi sobre esse assunto antes do golpe de 2016, mas agora o assunto se atualizou.

Para mim não há dúvida alguma que estamos em plena ditadura civil. É um grupo de 350 deputados, 60 senadores, 11 ministros do Supremo, algumas entidades empresariais e as famílias donas da mídia tradicional que impuseram uma ditadura sobre o povo. As instituições funcionam, como dizem eles, mas contra o povo e apenas em favor de uma reduzidíssima classe de privilegiados brasileiros. Claro, sempre conectados com as transnacionais e poderes econômicos que dominam o mundo.

Portanto, nós, o povo, fomos postos de fora. Tudo é decidido por um grupo de pessoas que, se contadas nos dedos, não devem atingir mil no comando, com um grupo um pouco maior participando indiretamente.

Acontece que o golpe não fecha, não se conclui, porque a corrupção, velha fórmula para aplicar golpes nesse país, hoje é visível graças a uma mídia alternativa presente e cada vez mais poderosa. E a corrupção está em todos os níveis da sociedade brasileira, sobretudo nos hipócritas que levantaram essa bandeira para impor seus interesses.

Mas, a corrupção é apenas o pretexto. Segundo a visão de Leonardo Boff, o objetivo do golpe é reduzir o Brasil para 120 milhões de brasileiros. Os 100 milhões restantes vão ter que buscar sobreviver de bicos, esmolas e participação em gangs, quadrilhas e tráfico de armas e drogas.

Então, começam aparecer sinais do verdadeiro pensamento de quem está no comando, uma reunião da Maçonaria, um general falando a verdade do que vai nos bastidores, a velha mídia com a opinião de “especialistas”, nas mídias sociais os saudosos da antiga ditadura dizendo que “quem não é corrupto não precisa ter medo dos militares”.

Enfim, estão plantando a possibilidade da ditadura militar. Para o pequeno grupo que deu o golpe ela é excelente, a melhor das saídas. Nunca foram democráticos. Não gostam do povo. Inclusive nessa Câmara e nesse Senado, poucos vão perder seus cargos ou ir para a cadeia.

O pior de uma ditadura civil ou militar é sempre para o povo. As novas gerações não conhecem a crueldade de uma ditadura total.

É de gelar a alma o silêncio da sociedade diante das declarações do referido general.

Moro canonizou Lula

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Pode mandar a ficha de Lula para o Vaticano que Francisco vai canoniza-lo. Depois de anos investigando o condenado, o juiz o condenou por ser dono de um apartamento, cuja pertença real hoje é da Caixa Econômica.

Moro absolveu Lula da acusação de ter ganho um “transporte” daqueles objetos que ele ganhou quando presidente. Esse detalhismo só comprova até onde foi esse papel do advogado do diabo, figura que procurava todos os defeitos de uma pessoa nos processos de canonização, para provar que o santo não era tão santo. O próprio João Paulo II se encarregou de defenestrar o papel desse advogado dos rituais de canonização.

Por fim, Lula ainda vai responder a julgamento pelo sítio de Atibaia. Convenhamos, vamos dar de bandeja ao Moro que Lula seja dono do Triplex – que é da Caixa – e do sítio que é de um sindicalista. Mesmo assim, diante do que a roubalheira da política brasileira, Lula é um santo.

E, como não há nenhuma prova documental de que ele seja dono dessas insignificâncias, então, em segunda instância, pode ser absolvido e consolidada sua canonização.

A destruição dos direitos do povo brasileiro comprova a intenção desse golpe e a tentativa de excluir Lula do processo eleitoral de 2018. Incrível como a burguesia nacional teme esse homem! Incrível como não consegue destruir sua potência eleitoral!

Pessoalmente, penso que ele deveria estar aposentado e vivendo sua vida. Já cumpriu seu papel histórico. Mas, os adversários fazem questão de ressuscitá-lo politicamente. Esse sentimento de sentença injusta e covarde só vai potencializar Lula, caso não consigam impedir sua candidatura.

Essa sentença diz mais quem é Moro, menos quem é Lula.

O Brasil ficou mais transparente

Roberto Malvezzi (Gogó)

O governo das grandes corporações econômicas se chama neoliberalismo. Sabíamos dessa realidade, mas hoje podemos dar claramente nome aos bois.

A classe política é apenas sua executiva e o judiciário seu guardião, embora sempre haja contradições.

No Brasil ficou clara essa realidade quando vemos as empresas financiarem as campanhas de seus candidatos, quando compram as medidas provisórias dos seus interesses, quando pagam propinas e fazem mimos aos agentes públicos também conforme seus interesses.

Essa classe política servil, corrupta e subordinada pode atender pelo nome de Eduardo Cunha, como uma figura simbólica dessa época. Claro, há uma exceção minoritária como sempre.

Nesse sentido está claro o papel da FIESP e CNI, cujo figura mais emblemática é Paulo Skaf. É o grupo empresarial brasileiro – o papel dos estrangeiros ainda está um tanto obscuro, exceto na Petrobrás e na venda de terras aos estrangeiros e na privatização dos aquíferos – que promove e impõe as reformas trabalhistas, previdenciárias, PEC do congelamento de gastos e terceirização das atividades fins do trabalho.

Está claro o papel do judiciário, sobretudo em Curitiba e no Supremo Tribunal Federal. A política clara de Sérgio Moro e Gilmar Mendes – embora haja algum atrito em torno de certas personalidades – é o rosto do judiciário brasileiro e de sua ética.

Os banqueiros, ao imporem seus juros e seus nomes para defender o interesse dos especuladores, tem em Roberto Setúbal o nome claro do governo das corporações financeiras.

Nos grupos midiáticos, embora no momento haja pequenas contradições entre Globo e Folha de São Paulo quanto a Temer, não há nenhuma contradição no cerne do golpe que é o implante da desregulamentação em todos os setores da sociedade.

Para ganhar o poder central – além do econômico e midiático que já controlam – qualquer golpe é válido. E os golpistas do país tem em Aécio, Temer e mais alguns nomes o rosto dessa realidade.

Por fim, uma certa esquerda brasileira, que ao aderir aos métodos de compra e venda de parlamentares e partidos, também não soube inventar outro caminho a não ser mergulhar na subordinação às grandes empresas para amealhar recursos. Uma boa parte dessa esquerda, além de mergulhar nos caminhos do dinheiro farto e fácil, no fundo comunga as estratégias globais do capitalismo predador, a não ser com pequenas e frágeis inclusões sociais, que são importantes, mas não tem estabilidade estrutural para permanecer por longo tempo.

Então, o Brasil está mais claro, mais transparente, em grande parte devido às novas mídias, e isso é bom. Talvez essa transparência esteja na raiz da última pesquisa Datafolha, indicando o crescimento dos “valores de esquerda” no povo brasileiro. Entretanto, não significa que o país está melhor, ao contrário, estamos com 13 milhões de desempregados, 60 mil assassinatos por ano nas cidades e o aumento desbragado da violência no campo, além da violência aberta contra as florestas, rios e seus povos. Portanto, essa transparência pode ser simplesmente o total descaramento de uma elite tradicional excludente, violenta e opressiva.

Discernimentos para o momento atual

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Roberto Malvezzi (Gogó)

A filosofia nos ensinava que o “bom filósofo sabe distinguir”. Na Teologia o discernimento é um dom do Espírito Santo.

Porém, discernir não é apenas um ato racional como quer a filosofia, mas buscar com reta intenção e reto coração o que é justo e bom.

Então, vamos a alguns discernimentos para o momento atual brasileiro:

Primeiro, todos os grandes partidos – inclusive grande parte dos menores – se utilizaram fartamente do dinheiro das grandes empresas, como o PMDB, PSDB e PT. Se o dinheiro é legal ou ilegal tanto faz para nós cidadãos. O fato é que quem recebe tanto dinheiro de empresas está com sua cabeça na corda da forca e terá que retribuir esses financiamentos.

Segundo, para as empresas a propina é investimento. O que for dado, legal ou ilegalmente, será cobrado. Nesses anos de intensa propina, o patrimônio da Odebrecht saltou de 16 para mais de 100 bilhões. Portanto, compensou.

Terceiro, a promiscuidade dos partidos não significa enriquecimento pessoal de todos os envolvidos. Alguns sim, outros não. Sobre Dilma até hoje não se levantou uma única acusação de enriquecimento pessoal. Sobre Lula há denúncias todos os dias, até agora nenhuma devidamente comprovada. Sobre Serra, Aécio, Golpista e outros, há denúncias e indicação de contas e extratos de pagamento. Todos têm direito à defesa até à última instância para que as denúncias sejam devidamente comprovadas. Senão, são denúncias vazias. Juízes e promotores também não estão acima da lei.

A supressão veloz e perversa dos direitos do povo brasileiro, duramente conquistados em mais de um século de civilização, não guarda nenhuma relação com o combate à corrupção. Os capitalistas brasileiros – banqueiros, empresários, mídia corporativa, agronegócio – perceberam a fragilidade política do momento para impor seus interesses.

Nas mudanças trabalhistas – 12 h por dia, terceirização de todas as atividades, expor mulheres grávidas à serviços com radiação, etc. -, querem nos retroceder à Revolução Industrial, onde mulheres, crianças e idosos tinham uma jornada diária de até 16 h.

A reforma previdenciária atinge, sobretudo, trabalhadores rurais, elevando a idade da aposentadoria, dos benefícios para quem nada tem na vida, além da PEC do fim do mundo que congelou os investimentos em saúde e educação por mais de 20 anos.

Além do mais está acontecendo a privatização de mananciais de água como o Aquífero Guarani, a entrega de terras a estrangeiros, além de mudanças constantes na legislação ambiental para favorecer a devastação de nossas florestas, solos e rios, enfim, de nossos biomas.

Vale lembrar que a corrupção é perversa, mas não é o principal ralo do dinheiro público. Os juros e encargos da dívida pública levam cerca de 800 bilhões de reais por ano, cerca de 42% do orçamento nacional. Porém, cerca de 5% da população brasileira embolsam esse dinheiro fácil e não querem discutir essa questão por motivos óbvios.

Por isso, a greve geral do dia 28 deve ter todo apoio. A denúncia contra esse governo impostor deve estar em todas as nossas atividades. Agora não estamos defendendo um partido, estamos fazendo um discernimento e defendendo os direitos dos mais vulneráveis, na perspectiva do que seja justo e bom para a maioria do povo brasileiro.

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Denunciar Golpista nas missas

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Estávamos no auge do Regime Militar. A tortura e as mortes aconteciam sem que a sociedade soubesse. Então, num sábado à noite, D. Paulo Evaristo Arns foi celebrar uma missa na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Jardim Paulistano, São Paulo. Ali, numa roda miúda, nos disse que um jornalista tinha sido assassinado nas dependências do Exército. Era Vladimir Herzog. Então, a Arquidiocese de São Paulo tinha lançado uma nota para ser lida em todas as missas dominicais. Era uma denúncia corajosa e franca dos porões da ditadura e da morte de Herzog.

Para muitos especialistas, ali começou a derrocada do Regime Militar, isto é, havia um espaço que os generais não controlavam. Era exatamente o interior dos templos católicos.

Hoje a CNBB pede a todas as dioceses do Brasil que leiam a carta denúncia contra as reformas do governo Golpista, particularmente a da Previdência. Mas podem ser incluídas aí a PEC do Fim do Mundo, a terceirização geral dos trabalhos e a reforma trabalhista. A CNBB é clara: as reformas atendem o mercado, mas atentam contra o povo.

Alguns cardeais, vários bispos, muitos padres e muitos leigos apoiaram o golpe contra a democracia que possibilitou esse ataque destrutivo aos direitos do povo. O governo anterior tinha problemas éticos, políticos e econômicos, mas nunca atacou os direitos do povo. Esse tem o dobro de problemas éticos, políticos e econômicos, mas tem o detalhe de querer destruir tudo que o povo brasileiro construiu em termos de civilidade desde Getúlio Vargas, passando pela Constituinte Cidadã de 1988 e também nos últimos governos.

Quem sabe a leitura das cartas nos templos, nas missas, nas procissões, durante a Semana Santa, inclusive, demonstrando claramente a intenção desse governo de crucificar novamente nosso povo, seja o primeiro passo de reação a esse golpe, assim como foi a carta de D. Evaristo Arns no Regime Militar.

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