Deputados e senadores na mira do povo

00_Coluna_do_Gogo

Roberto Malvezzi (Gogó)

Cresce em todos os recantos do Brasil – ouço isso da Amazônia ao Apodi, passando pelo Pampa Gaúcho – a ideia de marcar severamente todos os deputados e senadores que votaram pelo golpe de 2016 e, principalmente, aqueles que estão votando contra o povo brasileiro.

Vamos ilustrar claramente onde votam contra o povo: PEC do fim do mundo que congelou os gastos de saúde e educação por vinte anos; reforma do ensino; reforma trabalhista e a reforma da previdência.

Nós, que atuamos com populações do campo, ainda acompanhamos as mudanças nas questões ambientais, entrega de terras aos estrangeiros e mudanças na política indigenista.

Não é só colocar o nome dos deputados e senadores na internet, denunciando-os como traidores do povo. Nem basta cerca-los em aeroportos para manifestar a indignação com suas atitudes políticas. É algo mais miúdo, que vai à casa de seus eleitores, explicar o que esses homens e mulheres tem feito contra os trabalhadores e mais vulneráveis da sociedade.

É o propósito de esclarecer para o povo das regiões onde são eleitos – aí será necessário trabalhar contra o nome do deputado ou senador na região, nos municípios, etc. – que eles recebem muito dinheiro das empresas para fazer campanha, mas é o voto do povo que os elege, não o dinheiro de seus corruptores.

Não que essa prática elimine a necessidade de uma profunda reforma política, nem quer dizer que os novos eleitos serão necessariamente melhores que os atuais. Mas, essa iniciativa pode inaugurar uma nova fase na política brasileira, que é um certo monitoramento efetivo do comportamento dos parlamentares.

Tomara que a ideia prospere. Quem sabe o próximo Congresso seja um pouco mais digno das angústias e esperanças do povo brasileiro.

Discernimentos para o momento atual

00_Coluna_do_Gogo

Roberto Malvezzi (Gogó)

A filosofia nos ensinava que o “bom filósofo sabe distinguir”. Na Teologia o discernimento é um dom do Espírito Santo.

Porém, discernir não é apenas um ato racional como quer a filosofia, mas buscar com reta intenção e reto coração o que é justo e bom.

Então, vamos a alguns discernimentos para o momento atual brasileiro:

Primeiro, todos os grandes partidos – inclusive grande parte dos menores – se utilizaram fartamente do dinheiro das grandes empresas, como o PMDB, PSDB e PT. Se o dinheiro é legal ou ilegal tanto faz para nós cidadãos. O fato é que quem recebe tanto dinheiro de empresas está com sua cabeça na corda da forca e terá que retribuir esses financiamentos.

Segundo, para as empresas a propina é investimento. O que for dado, legal ou ilegalmente, será cobrado. Nesses anos de intensa propina, o patrimônio da Odebrecht saltou de 16 para mais de 100 bilhões. Portanto, compensou.

Terceiro, a promiscuidade dos partidos não significa enriquecimento pessoal de todos os envolvidos. Alguns sim, outros não. Sobre Dilma até hoje não se levantou uma única acusação de enriquecimento pessoal. Sobre Lula há denúncias todos os dias, até agora nenhuma devidamente comprovada. Sobre Serra, Aécio, Golpista e outros, há denúncias e indicação de contas e extratos de pagamento. Todos têm direito à defesa até à última instância para que as denúncias sejam devidamente comprovadas. Senão, são denúncias vazias. Juízes e promotores também não estão acima da lei.

A supressão veloz e perversa dos direitos do povo brasileiro, duramente conquistados em mais de um século de civilização, não guarda nenhuma relação com o combate à corrupção. Os capitalistas brasileiros – banqueiros, empresários, mídia corporativa, agronegócio – perceberam a fragilidade política do momento para impor seus interesses.

Nas mudanças trabalhistas – 12 h por dia, terceirização de todas as atividades, expor mulheres grávidas à serviços com radiação, etc. -, querem nos retroceder à Revolução Industrial, onde mulheres, crianças e idosos tinham uma jornada diária de até 16 h.

A reforma previdenciária atinge, sobretudo, trabalhadores rurais, elevando a idade da aposentadoria, dos benefícios para quem nada tem na vida, além da PEC do fim do mundo que congelou os investimentos em saúde e educação por mais de 20 anos.

Além do mais está acontecendo a privatização de mananciais de água como o Aquífero Guarani, a entrega de terras a estrangeiros, além de mudanças constantes na legislação ambiental para favorecer a devastação de nossas florestas, solos e rios, enfim, de nossos biomas.

Vale lembrar que a corrupção é perversa, mas não é o principal ralo do dinheiro público. Os juros e encargos da dívida pública levam cerca de 800 bilhões de reais por ano, cerca de 42% do orçamento nacional. Porém, cerca de 5% da população brasileira embolsam esse dinheiro fácil e não querem discutir essa questão por motivos óbvios.

Por isso, a greve geral do dia 28 deve ter todo apoio. A denúncia contra esse governo impostor deve estar em todas as nossas atividades. Agora não estamos defendendo um partido, estamos fazendo um discernimento e defendendo os direitos dos mais vulneráveis, na perspectiva do que seja justo e bom para a maioria do povo brasileiro.

www.robertomalvezzi.com.br

Denunciar Golpista nas missas

00_Coluna_do_Gogo

Estávamos no auge do Regime Militar. A tortura e as mortes aconteciam sem que a sociedade soubesse. Então, num sábado à noite, D. Paulo Evaristo Arns foi celebrar uma missa na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Jardim Paulistano, São Paulo. Ali, numa roda miúda, nos disse que um jornalista tinha sido assassinado nas dependências do Exército. Era Vladimir Herzog. Então, a Arquidiocese de São Paulo tinha lançado uma nota para ser lida em todas as missas dominicais. Era uma denúncia corajosa e franca dos porões da ditadura e da morte de Herzog.

Para muitos especialistas, ali começou a derrocada do Regime Militar, isto é, havia um espaço que os generais não controlavam. Era exatamente o interior dos templos católicos.

Hoje a CNBB pede a todas as dioceses do Brasil que leiam a carta denúncia contra as reformas do governo Golpista, particularmente a da Previdência. Mas podem ser incluídas aí a PEC do Fim do Mundo, a terceirização geral dos trabalhos e a reforma trabalhista. A CNBB é clara: as reformas atendem o mercado, mas atentam contra o povo.

Alguns cardeais, vários bispos, muitos padres e muitos leigos apoiaram o golpe contra a democracia que possibilitou esse ataque destrutivo aos direitos do povo. O governo anterior tinha problemas éticos, políticos e econômicos, mas nunca atacou os direitos do povo. Esse tem o dobro de problemas éticos, políticos e econômicos, mas tem o detalhe de querer destruir tudo que o povo brasileiro construiu em termos de civilidade desde Getúlio Vargas, passando pela Constituinte Cidadã de 1988 e também nos últimos governos.

Quem sabe a leitura das cartas nos templos, nas missas, nas procissões, durante a Semana Santa, inclusive, demonstrando claramente a intenção desse governo de crucificar novamente nosso povo, seja o primeiro passo de reação a esse golpe, assim como foi a carta de D. Evaristo Arns no Regime Militar.

www.robertomalvezzi.com.br

Coveiros da esperança

00_Coluna_do_Gogo

– Aos parlamentares ditos católicos –

É difícil saber se há algum parlamentar católico que se oriente politicamente pelos princípios da Doutrina Social da Igreja de justiça, equidade e respeito pelos mais pobres. Mas, há muita gente ali que se declara católico.

Nem vamos falar da Bancada da Bíblia, aliada da Bancada do Boi e da Bala. Esses são os adoradores do dinheiro, do poder e da violência.

Agora, com a PEC do fim do mundo, com as mudanças trabalhistas reduzindo nosso povo aos níveis da revolução industrial na Inglaterra, com a destruição da Previdência Social, seria necessário saber com quem esses parlamentares estão votando.

Para os adoradores do dinheiro e do poder, o Juízo Final é uma piada. Mas, para quem tem alguma referência em Deus, é bom lembrar que quem exclui os mais pobres atrai a maldição de Deus, também nas suas decisões políticas. Paulo VI lembrava que a política é o espaço supremo da caridade. Portanto, vale o contrário, ou seja, pode ser o espaço supremo do egoísmo humano de classe. De qualquer forma, está aí o capítulo 25 de São Mateus: “ide para o fogo do inferno amaldiçoados…porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber (Mateus 25,41-42). Ou seja, estive velho e não me aposentastes, estive doente e me roubastes o SUS, estive desempregado e me destes um serviço terceirizado….

Então, do ponto de vista socioambiental, estamos sendo conduzidos à uma sociedade tipo “mundo cão”, já que exclusões sociais massivas geram desemprego, miséria, insegurança, violência, quadrilhas, tráfico, assassinatos, cadeias superlotadas, assim por diante. Claro, vez em quando vai haver um assalto de rua e alguém da classe média tradicional será assaltado ou morto. A nata da elite brasileira anda de helicóptero e jatos particulares.

Portanto, os ditos parlamentares católicos merecem essa observação: quem ferra o pobre, também nas decisões políticas, por Deus será ferrado.

 

Comer é um ato de fé!

00_Coluna_do_Gogo

Roberto Malvezzi (Gogó)

Sartre dizia que a sociedade vive de uma “fé laica”, isto é, precisamos acreditar que a pasta de dente não tem veneno, que o avião tem combustível, que a ponte não vai cair, que o remédio tem a substância ativa na quantidade certa, assim por diante. A razão dessa fé é que não temos condição, como cidadãos, de averiguar caso a caso se o que nos dizem procede verdadeiramente ou se é uma farsa.

Os chamados “global players”, essas transnacionais que dominam ramos específicos do capital no mercado global, seguem o script comum do suborno, da compra, da deposição de governos democraticamente eleitos, da promoção da guerra, da destruição de países, da eliminação de populações inteiras em nome de seus interesses. As empreiteiras brasileiras, a indústria da carne e a Petrobrás estão nesse campo. Acontece que os “players” dos Estados Unidos e Europa querem o lugar que essas ocupam, ou ocupavam.

A carne podre nos prova que o agro é tech, que o agro é pop, que o agro é tóxico. Desconfiávamos, muitos nutricionistas nos diziam que isso é lixo alimentar. Agora não precisamos mais da desconfiança. Obviamente o marketing também mente.

Bom, não adianta sermos vegetarianos, porque nossas frutas e legumes contem também altas doses de veneno, a não ser os poucos privilegiados que podem comer um alimento orgânico.

São as contradições da alma e da prática capitalista. O puritanismo moreano destruiu os “players” do Brasil e nós, comprovadamente, ficamos sabendo que precisamos de uma agricultura agroecológica se quisermos comer alimentos sadios. Da forma como a indústria de alimentos está organizada, não temos saída.

A única vantagem de Moro e do golpe é que as crueldades desse país ficaram mais transparentes, inclusive as dele e dos golpistas.

Transposição, a hora da verdade

00_Coluna_do_Gogo

Roberto Malvezzi (Gogó)

Há uma certa euforia a respeito da reta final da Transposição de águas do São Francisco para o chamado Nordeste Setentrional. Elio Gaspari, na Folha de São Paulo, disse que a “Transposição de Lula é um sucesso”. É compreensível também a euforia da população receptora. Nós aqui, que somos obrigados a olhar a floresta e não só a árvore, mantemos nosso olhar crítico sobre essa obra.

Em primeiro, a água ainda não transpôs o divisor e não chegou aos estados do Setentrional, mas permanece nas barragens do Pernambuco. Houve vazamento na barragem de Sertânia e o município foi obrigado a remover 60 famílias atingidas pelo vazamento. Houve morte de pequenos animais e destruição de bens familiares.

Segundo, permanecem as encruzilhadas da obra que sempre chamamos a atenção: essa água transposta será para o povo necessitado dos estados receptores ou para o agro-hidronegócio e indústria? Dilma já disse que para real posto nos grandes canais, serão necessários dois reais para fazer as adutoras que, de fato, levarão a água aos municípios.

Essa é a primeira diferença entre o projeto de várias adutoras – que defendíamos – e a mega obra da Transposição. Se a opção fosse pelas primeiras, a água já teria ido direto – por tubulação simples – para os serviços municipais de água e estariam dispensados os grandes canais. A opção foi pela grande obra. Talvez hoje, depois da Lava-Jato, fique mais claro o porquê.

Acontece que o cenário político mudou. Se Lula-Dilma tinham interesse em fazer as adutoras a partir dos grandes canais, o atual governo pretende criar o maior mercado de águas do mundo, privatizar as águas da Transposição – que significa também privatizar a água de chuva já acumulada nos reservatórios do Setentrional – e não demonstra interesse algum em fazer sua distribuição.

Por último, a revitalização do São Francisco. Lula-Dilma diziam que iriam fazer a revitalização do São Francisco simultaneamente à grande obra da Transposição. O único investimento que deu resultado foi o saneamento, embora ainda inconcluso e desperdiçando obras iniciadas como as estações de tratamento de Pilão Arcado e as adutoras em Remanso. Aqui em Juazeiro o saneamento avançou.

Essa iniciativa é positiva, mas insuficiente. Sem atacar as causas de destruição do São Francisco, que abrange toda sua bacia, mas principalmente a devastação do Cerrado, não haverá São Francisco em breve tempo.

Hoje, o São Francisco está com uma vazão de 750 m3/s, quando nos garantiam que a partir de Sobradinho sempre seria de 1800 m3/s.. Portanto, hoje o volume de água é 1/3 do que os técnicos previam para garantir a água da Transposição.

Sobradinho – a caixa d’água que garante o fluxo abaixo – está com 11% de sua capacidade. O período chuvoso está terminando e todos os usos na bacia, a não ser por um milagre da natureza, estarão comprometidos.

Hoje o mar avança de 30 a 50 km São Francisco adentro, salgando as águas que abastecem a população ribeirinha de Sergipe e Alagoas. Se continuar nesse ritmo, em breve comprometerá a adutora que abastece Aracaju. O rio perdeu força, o mar avança.

O que tem salvado a população nordestina nesses 6 anos de seca foi a malha de pequenas obras hídricas, como as cisternas. Com essas tecnologias e outras políticas sociais vencemos a fome, a sede, a miséria, a migração, os saques e a mortalidade infantil. O IDH subiu em toda a região e o crescimento foi visível em relação a outras regiões do Brasil. Logo, não foi a grande obra. O paradigma da convivência com o Semiárido mostrou-se eficaz, enquanto o paradigma do combate à seca só encheu as burras dos coronéis.

Portanto, olhando a árvore o sucesso da Transposição está garantido, olhando a floresta os problemas continuam e se acumulam.

OBS: A intenção de Temer e Alckmin de tirar uma lasquinha na inauguração da Transposição excede todo ridículo.

 

www.robertomalvezzi.com.br

Doze piadas de 2016 e seus humoristas

00_Coluna_do_Gogo

Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Golpista presidente (Narrada por Michel)
  2. Não foi golpe (Aécio, Serra e FHC)
  3. O Brasil já melhorou muito (Cristovam Buarque sobre governo Golpista)
  4. Por minha família, minha pátria, minha conta na Suíça, medo da Lava-Jato, voto sim (360 picaretas da Câmara dos Deputados e mais 61 Incitatus do Senado)
  5. PowerPoint do Dallagnol  (Por ele mesmo)
  6. Pedalinho do Lula ou da Marisa (Jornal Nacional)
  7. Palestra sobre ética no farisaísmo bíblico (Sérgio Moro, cachê de 90 mil reais)
  8. Imparcialidade da Mídia Corporativa (Famílias Marinho, Frias, Mesquita e Civita)
  9. Derrubamos o PT e acabaremos com a corrupção, os impostos e o desgoverno (Paulo Skaf, Paulinho da Força e manifestantes de verde e amarelo da Paulista e Copacabana)
  10. Autocrítica do PT (Direção Nacional)
  11. Supremo Tribunal Federal (Por Gilmar Mendes)
  12. Os brasileiros vão se aposentar no túmulo (Eu)

As perspectivas de um Brasil de párias.

00_Coluna_do_Gogo

Roberto Malvezzi (Gogó)

Esses dias, por questões familiares, tenho andado muito no setor de oncologia do Hospital Regional de Juazeiro. Ali vejo pessoas sendo atendidas pelo SUS. É o diagnóstico, os exames, os remédios para tratamento, assim por diante.

Qualquer tentativa de ir para a medicina privada se torna impossível para a esmagadora maioria daquelas pessoas e famílias. Tudo é absolutamente caro e inalcançável.

O espaço é simples e digno. O atendimento é muito humanizado. As atendentes, enfermeiras e o próprio médico muito gentis. O problema, como sempre, é uma certa lentidão no atendimento, fator que pode ser melhorado com um pouco mais de capricho na gestão.

Saio dali e fico pensando como será a situação de pessoas com câncer daqui a 4 ou 5 anos, que dirá vinte anos!!! O que restará da saúde pública depois da aprovação da PEC 241? O que me faz ferver o sangue é ver, mais uma vez, nomes como do senador Cristóvão Buarque e Marta Suplicy (Golpista) votando a favor de uma perversidade política desse porte.

E a educação? Se hoje as escolas são precárias, se ninguém mais quer ser professor pelo baixo nível dos salários, se um país precisa de educação para ser considerado como tal, o que restará da educação desse país daqui a vinte anos?

E o saneamento? Fernando Henrique fez um acordo com FMI e Banco Mundial e, por consequência, o Brasil ficou 10 anos sem investir em saneamento. O resultado é que hoje nosso padrão de saneamento é considerado nos mesmos níveis de Londres e Paris, só que em 1400. Congelando os investimentos em 8 bilhões ao ano – é o que foi feito -, vamos levar mais de 60 anos para resolver um problema elementar que torna civilizado um pais e um povo. Isso se houver o investimento e se ele for bem feito.

Mas, duvido que os esmagados se calem e se conformem. A revanche virá.

Tal como está, é impossível imaginar esse país em perspectiva, sem pensar numa sociedade de privilegiados e o restante de párias. A diferença brutal desse governo em relação aos anteriores é que eles se propunham ser mais inclusivos, esse é declaradamente excludente.

Uma das bandeiras de luta para os próximos passos é anular, através de um plebiscito nacional, as decisões tomadas pelos traidores.

De 1 milhão de mortos para 1 milhão de cisternas.

00_Coluna_do_Gogo

Roberto Malvezzi (Gogó)

Na seca de 82 a estimativa foi que pelo menos 1 milhão de Nordestinos ainda morreram de inanição, isto é, fome ou sede. Nessa seca que vem de 2012 até 2016, não há registros de mortes por inanição, nem o fenômeno das grandes migrações, nem frentes de emergência e muito menos saques nas cidades do sertão.

O IX ENCONASA – Encontro da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) -, acontecido entre 21 e 25 de novembro, em Mossoró, constatou que passamos de 1 milhão de mortos para 1 milhão de cisternas. Além do mais, houve 200 mil replicações de tecnologias para armazenar água para produção. Enquanto as cidades passam grande necessidade no Semiárido – por falta das adutoras – e o gado da “classe média rural Nordestina” morre por falta de água e ração, o povo que sempre foi vítima das tragédias humanitárias das secas está bem melhor que os demais. Aprendeu com a captação da água de chuva, o manejo da caatinga, a criação de animais resistentes à seca, assim por diante.

Mas, o governo atual voltou com o discurso do “combate à seca”, eliminou os programas de convivência com o Semiárido e despejou novamente os recursos no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DENOCS), sob comando do PMDB. O raciocínio dispensa comentários e o redirecionamento das verbas o mesmo.

Os tempos brasileiros são de retrocesso generalizado, o Nordeste não iria ficar de fora. Foi-se o tempo dos investimentos por aqui, ainda que tantas vezes equivocados, mas parte foi corretamente direcionada ao novo paradigma da convivência, produziu frutos e garantiu vidas.

Foi pouco dinheiro, prazo de 15 anos, mas suficientes para melhorar a vida do povo do que em 500 anos das oligarquias.

Sabemos que quem está no poder não tem interesse algum no povo do Semiárido. O jogo de compadrio entre o STF e Renan, Moro e Aécio, Golpista e coronéis é tipo sexo explícito. Não há o que esconder.

Esse governo tem cara de 200 anos atrás, mas nós vamos manter vivo o paradigma da convivência com o Semiárido. Quem já nasceu velho, não tem futuro. A convivência é o novo, portanto, o presente e o futuro.

 

Jamais seremos os mesmos.

00_Coluna_do_Gogo

Roberto Malvezzi (Gogó)

Escrevo para mim mesmo e alguns milhões que comungam a mesma impotência – pelo menos por hora – perante o golpe impetrado no Brasil e seus desdobramentos.

Não tivemos chance de defesa. Falo dos 54 milhões de brasileiros que tiveram seus votos sequestrados por trezentos e poucos calhordas da Câmara e depois 60 senadores. Agora, todas as mudanças constitucionais que vão sendo operadas de costas para o povo.

Não se trata de defender os erros e até crimes do PT ou de petistas. Mas, também não se trata de cegar para a fantástica hipocrisia nacional, cabalmente demonstrada no avanço das investigações sobre outros partidos.

Agora já se questiona o resultado do golpe. A recessão econômica projetada no governo Dilma era de 3,5% do PIB. Com Golpista está projetada em 7%. A indústria caiu, o agronegócio também e o desemprego saltou de 10 milhões com Dilma para 12 com Golpista. Portanto, aquela promessa mágica que o golpe prometia não se realizou. Agora, até Fernando Henrique já fala em eleições diretas para dar alguma credibilidade a quem vai enfrentar o abismo que nos lançaram.

A fratura social do Brasil cravou na alma e vai durar muitas gerações. Vamos continuar nos cuspindo, nos enfrentando em manifestações de rua, restaurantes, nos ofendendo nas redes sociais, alimentando discriminações étnicas, sexistas, classistas, regionais e todas de outros naipes. Talvez nunca tenhamos sido uma nação, mas um aglomerado de pessoas que ocupam o mesmo território (Leonardo Attuch)

Quem tem fome e sede de justiça não pode aceitar um ajuste fiscal e econômico às custas da subtração de direitos e da miséria do povo.  A verdadeira reconciliação só se dá em cima da justiça e um passo a mais na misericórdia, que pressupõe a justiça. E o golpe está aprofundando todas as injustiças históricas do país. O ajuste não é apenas impopular, como diz a grande mídia, mas anti-humano.

Não se trata de nos alimentarmos de ódio. Ele paralisa e mata. Mas, da contínua indignação perante as injustiças estruturais e estruturantes que são impostas secularmente às vítimas de nossa história. A distância entre o ódio e a indignação é um piscar de olhos.

Jamais seremos os mesmos. Essa é a frase que mais ouvi nos últimos tempos, de pessoas tão diferentes, que nem se conhecem. Ou nos reconciliamos na justiça, ou jamais nos reconciliaremos.