Os animais nas religiões e no capitalismo

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Roberto Malvezzi (Gogó)

O sacrifício religioso acompanha a história da humanidade, não só de animais, mas de pessoas. Quando Abraão vai sacrificar Isaque, Deus intervém, e o liberta do sacrifício de seres humanos (Gênesis 22, 1-24). É uma contraposição às religiões da época que sacrificavam pessoas para aplacar a ira dos deuses.

Mas, o sacrifício dos animais continuou ao longo da história de Israel. O cordeiro da páscoa e o bode expiatório dos pecados do povo são exemplos clássicos. Os primeiros cristãos vão chamar Jesus de “Cordeiro de Deus”, isto é, aquele que foi imolado no lugar de outros.

Há uma linhagem de interpretação dos rituais de religiões descendentes de africanos, afirmando que o sacrifício de animais nas encruzilhadas era simplesmente um modo de ofertar alimentos aos negros foragidos e que poderiam passar fome pelas matas. Então, tinha o sentido nobre de alimentar seus irmãos em fuga.

Mas, não há uma carnificina maior do que a religião capitalista, ou a sociedade de consumo como um todo. No Brasil são mais de 200 milhões de cabeças de gado em sua maioria para o abate. Há mais vacas e bois nesse país do que pessoas. Essa cultura provoca o desmate de nossas florestas, alimenta o efeito estufa e ocupa aproximadamente 200 milhões de hectares de terras.

A criação de galinhas e porcos em regime intensivo é um horror. Os animais têm que estar prontos para o abate em 40 ou 45 dias, ou então se transformam em prejuízos. O mesmo com os peixes em cativeiro. É um horror trezentas ou quatrocentas tilápias num tanque rede, debatendo-se uma sobre as outras, sem espaço para nadar, apenas consumindo ração para atingir o tamanho do abate.

Muitos dizem que esses animais são a proteína barata que o pobre tem acesso. É verdade. Mas, para produzir cada kg de proteína animal, são necessários 10 kg de proteína vegetal. É o hábito humano e o mercado que na verdade dirigem essa produção.

A natureza não é vegana. Na cadeia alimentar leões se alimentam de gazelas e hienas se alimentam dos restos deixados pelos leões. Os tucunarés se alimentam de lambaris e outras forrageiras, enquanto as piranhas devoram surubins e curimatãs, mas tem seus ovos devorados nos ninhos pelas piabas. Portanto, o consumo de carne por outros carnívoros também está inscrito na cadeia alimentar.

Em resumo, só não dá para entender porque o Ministério Público quer condenar a utilização de pequenos animais nos rituais das religiões de matriz africana, deixando livre o sacrifício de animais na religião capitalista.

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As boas coisas da paralisação dos caminhoneiros

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Roberto Malvezzi (Gogó)

A cidade está um silêncio.

As ruas estão desertas, bicicleteiros e pedestres podem andar à vontade.

O ar está limpo.

Não há ruídos para perturbar nossos ouvidos

Não há gás na cidade, muita gente cozinhando com churrasqueira, panela elétrica, fogão solar.

Não há postos com gasolina e os carros estão nas garagens.

Começa faltar de tudo nos mercados e supermercados, mas os hortigranjeiros que vem do interior estão passando em nossas portas, também galinha caipira, bode fresco, peta, ovos, etc. Portanto, fome ainda não chegou por aqui.

Aqui é uma região produtora de hortigranjeiros, a exportação está bloqueada, prejuízos de 570 milhões de reais segundo a VALEXPORT. Em compensação, estamos comendo quase de graça as frutas de exportação que antes nem passavam pelo mercado local, como a banana de primeira que nunca se via por aqui.

Sabe que seria interessante aprender a lição e voltarmos a ter pomares nas chácaras, hortas nas casas, menos dependência de supermercado e dos shoppings?

Quem sabe dependermos menos de caminhões, com produções mais regionalizadas…

Quem sabe até pensarmos em ferrovias, trens com muitos vagões, apenas uma locomotiva, levando gente e mercadoria….

Quem sabe navegação de cabotagem pela longa costa brasileira, abastecendo grande parte de nossas cidades litorâneas…

Quem sabe mais energia solar produzida pelo povo, também eólica e assim menos dependência de combustíveis fósseis…

Quem sabe chegue a hora que não precisemos mais de petróleo – esse poluidor do ar, que colabora com o aquecimento global – e possamos viver de energias limpas. Como gorjeta nos livraríamos dos Pedros Parentes e dos analistas do mercado.

Quem sabe uma civilização menos predatória, menos consumista, mais sustentável, mais humana e realmente agradável de se viver…

Olha, esse paraíso nem parece tão impossível….

 OBS: Escrevo a partir do dipolo Juazeiro-Petrolina

O preço do golpe

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Roberto Malvezzi (Gogó)

O preço dos combustíveis é resultado da nova política que veio com Pedro Parente: a entrega do Pré-Sal, o preço atrelado ao dólar, a renúncia fiscal de 1 trilhão de reais em favor das petroleiras que se apossaram do nosso petróleo. Ainda mais, o preço atrelado às variações internacionais do mercado pode subir todos os dias.

Mas, o mundo especulativo tende a esquecer a economia real e tudo que parece sólido em poucos dias se desmancha na bomba de gasolina. Espremido pelos preços, os empresários de transportadoras puseram seus caminhões para bloquear as pistas. Em poucos dias o país pode ficar desabastecido de combustível, alimentos, gás de cozinha, remédios, etc. Tudo que depende de transporte pode travar, inclusive as companhias aéreas que dependem do querosene para abastecer suas aeronaves.

É só nesses momentos que as pessoas entendem que o mercado é uma abstração, que pode muito, mas não pode suprir as necessidades básicas da economia real.

Mas, esse é só o começo. Um país golpeado, que volta todas as suas políticas para satisfazer o mercado e sacrificar o povo não tem a mínima viabilidade. Aí não adianta ter juízes, empresários, mídias, multinacionais e generais pressionado nos bastidores. Milhões de insatisfeitos inviabilizam qualquer governo.

É só a economia real que abastece as necessidades cotidianas de um povo. Ou quem manda nesse país se reconcilia novamente com o povo, refazendo as políticas nefastas que sacrificam a população, ou iremos ao caos sem que haja qualquer possibilidade de um salvador da pátria.

Hitler mandou matar

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Roberto Malvezzi (Gogó)

“O, Italiano, você toma cuidado, viu. Uma das primeiras ordens de Hitler foi mandar matar todo mundo que tinha menos de um metro e sessenta”.

Quem me contou essa história foi um amigo alemão, que por muitos anos trabalhou nos serviços da MISEREOR aqui no Brasil, um serviço de cooperação internacional da Igreja Católica da Alemanha.

Ele morou em Belo Horizonte muitos anos e ajudava construir igrejas, creches e outros centros de apoio à população mais empobrecida. Era na década de 70 ou 80.

Então, comprava material de construção na loja de um italiano. Todas as vezes que chegava lá, o italiano começava: “Ô, Alemão, nesse país aqui só um Hitler para dar jeito. De resto, ninguém pode ajeitar esse país de merda”.

O Alemão ouvia isso seguidamente. Um dia, de saco cheio, olhou bem para o italiano e reparou na sua baixa estatura. Quando o Italiano repetiu a necessidade de Hitler, então o Alemão disparou: “Ô, Italiano, você toma cuidado, viu. Uma das primeiras ordens de Hitler foi mandar matar todo mundo que tinha menos de um metro e sessenta”.

O Italiano nunca mais falou em Hitler com o Alemão.

Então, você que pede ditadura militar, o nazismo, cuidado se tiver menos de um metro e sessenta, se tiver sangue negro ou indígena nas veias, se for doente, se não for heterossexual, se for pobre, se for nordestino, for careca, se tiver verruga, se for velho, enfim, qualquer motivo para não ser um “ariano perfeito”, porque você corre perigo.

Moral da história: para um brasileiro inteligente, um italiano com menos de um metro e sessenta basta.

Violência, a parteira da história?

– C. da Fraternidade 2018 –

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Para Marx a violência é a parteira da história. É só por ela que o novo nasce.

Um cientista afirmou esses dias que a humanidade só conheceu a igualdade após períodos de grande violência, como a Segunda Guerra Mundial. Estima-se que nessa guerra 47 milhões de pessoas perderam a vida, sendo 26 milhões de soviéticos.

Na natureza, principalmente na cadeia alimentar, os mais fortes devoram os mais fracos. Os jovens leões, quando conquistam o território dos leões mais velhos, lhes roubam as fêmeas e depois matam todos os filhotes do antigo rei do pedaço. É o “Struggle for Existence” (life) de Darwin. Malthus trouxe esse princípio para o convívio social.

O próprio Universo foi parido por explosões violentas e não é possível entender a formação do mundo sem ela. Os cientistas dizem que nós, os humanos, só estamos aqui porque o choque de um meteoro bloqueou a atmosfera por anos, eliminando a vida dos dinossauros, possibilitando que evoluíssem os mamíferos, portanto, chegando até nós.

Há quem pense que o Brasil, enquanto não conhecer um confronto sangrento, onde as mortes aconteçam aos milhares de ambas as partes, jamais será um país justo. Só assim a elite escravocrata, que continua no poder, passaria a respeitar o povo.

Entretanto, a violência mata 60 mil pessoas por ano no Brasil, a maioria jovens, desses a maioria negra, dessa a maioria do sexo masculino. É uma verdadeira assepsia social a cada ano para prevalecer os interesses dos escravocratas.

Estatísticas nos disseram esses dias que cinco brasileiros concentram a riqueza de mais de 100 milhões de compatriotas. Ainda mais, 1% de brasileiros concentra 81% da renda nacional, ficando os outros 205 milhões com a tarefa de dividir entre si os 19% da riqueza restante. Mesmo assim há quem defenda maior concentração de renda, de propriedade, de poder e que essa minoria seja cada vez mais defendida à bala. A violência estrutural é a mãe de todas as violências, já diziam os bispos católicos em 1968 em Medellin, Colômbia.

Na verdade, a violência é, sobretudo, o controle do poder. Um general estadunidense afirmou que o importante mesmo é o “complexo industrial-militar”. Os exércitos do mundo aqui encontram sua razão de ser. Em plena Campanha da Fraternidade o Exército Brasileiro ocupa o Rio de Janeiro e é apoiado pela classe dominante e a Igreja Católica local.

Mas, há uma outra linhagem histórica de luta pela paz. Muitos dos grandes pacifistas da humanidade morreram violentamente, não porque praticavam a violência, mas porque os violentos detestam a paz que é fruto da justiça. Jesus, Gandhi, Luther King, Chico Mendes, Dorothy Stang, todos foram vitimados por defenderem a paz e a justiça. Mas, eles e elas nos ensinam que ser pacifista nunca foi ser conivente ou omisso diante da violência estrutural e pontual. Denunciaram essas situações a tal ponto de terem suas vidas sacrificadas pela paz.

Espero que nossas comunidades e grande parte da sociedade brasileira seja capaz de ir fundo no debate sobre a violência nesse violento Brasil, particularmente em 2018, onde a violência declarada quer ocupar o poder central.

Não podemos perder de vista que o “golpe” – e todos os golpistas –  que deu sequência a esse Brasil violento que vem desde nossas origens.

Água põe fogo no campo

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Aproximadamente mil pessoas entraram nas fazendas Igarashi e Curitiba em Correntina, Bahia, quebraram os pivôs centrais de irrigação das empresas e derrubaram as instalações elétricas.

Bastou para que a mídia falasse em vândalos, invasores, e a senadora Ana Amélia (Golpista) chegou a falar em exército de Lula no Senado, referindo-se ao MST. Quanta estupidez na boca de uma só senadora!

O MST não estava lá e nem precisava, porque a reação foi das comunidades ribeirinhas, mães e pais de família. É bom a senadora saber que a Bahia é governada por um petista e o INEMA, organismo que concede as outorgas de água no Oeste Baiano, tem grande responsabilidade nessa monstruosa outorga do Arrojado para as empresas beneficiadas.

Há décadas participo da reflexão sobre a água no mundo. Na Campanha da Fraternidade de 2004 já levantávamos a questão do novo discurso da água, de sua privatização, mercantilização, da oligarquia internacional da água, mas também da necessidade de defender a água como direito fundamental da pessoa humana e de todos os seres vivos, além de defendermos que a água, muito além do que querem os hidrólogos, tem múltiplos valores além dos múltiplos usos. Chamamos todos os negócios da água de hidronegócio.

Um dos principais prognósticos levantadas mundialmente é a questão da “guerra pela água”, já que a redução de um bem imprescindível à vida a uma mercadoria qualquer só pode transformar-se em guerra, como aconteceu em Cochabamba, na Bolívia.

Esses dias lancei o artigo “Hidrocídio Brasileiro” (http://robertomalvezzi.com.br/2017/10/09/845/), falando da matança de nossos mananciais, principalmente nossos rios, citando a decadência visível do Tocantins, Araguaia, Javaés, Araguari no Amapá, além do São Francisco e seus afluentes. É bom lembrar que o assassinato de uma grande bacia sempre começa por seus afluentes. Assim é a morte do São Francisco, que depende de rios como o Arrojado, esse saqueado pelas empresas, a tal ponto que as comunidades ribeirinhas ficaram sem água. A ocupação foi uma reação ao processo predador das empresas.

Quem está destruindo as florestas brasileiras – sobretudo a Amazônia que produz os rios voadores e o Cerrado que armazena as águas desses rios aéreos – é o agronegócio da senadora Ana Amélia (Golpista), apoiado por mais uns 50 senadores e mais de 200 deputados. Todos reforçados pelos meios de comunicação, sobretudo a Globo. É o agronegócio que está promovendo esse hidrocídio e a guerra pela água no campo.

Vale repetir que a água é bem vital e seu maior valor é o biológico, isto é, só há vida onde tem água. Deputados e senadores podem fazer muitas leis, mas não conseguem mudar as leis básicas da vida.

Ou mudamos nossa política hidrocida, ou a água vai pôr fogo no campo brasileiro.

Quem tiver interesse em assinar a nota em apoio às populações atingidas, contactar

comunicacao@cptba.org.br

7133284672 ou 7133295750

NOTA DAS ENTIDADES DA REGIÃO: Cansado do descaso das autoridades, o povo de Correntina reage em defesa das águas

A mídia está a noticiar que na manhã de quinta-feira, 02/11/2017, feriado de Finados, houve manifestação de populares nas Fazendas Igarashi e Curitiba, no distrito de Rosário, município de Correntina. Segundo imagens e áudios que circulam pela Internet, estas fazendas teriam sido invadidas e parte de suas máquinas, instalações e pivôs quebrados e incendiados, e que os autores destas ações são populares de Correntina. Segundo os relatos participaram da ação entre 500 a 1.000 pessoas.

O Oeste da Bahia tem se destacado como produtor de grãos para exportação, referência para o agronegócio nacional, cada vez mais de interesse internacional. Está inserido no MATOPIBA – projeto governamental de incentivo a esta produção nos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – atual fronteira agrícola brasileira, onde estão localizados os últimos remanescentes de Cerrado no Brasil. É nesta região onde se encontram os rios Carinhanha, Corrente e Grande, suas nascentes, subafluentes e afluentes, principais contribuintes com as águas do rio São Francisco na Bahia, responsáveis por até 90% de suas águas no período seco. São estas águas que abastecem milhares de comunidades rurais e centenas de municípios baianos e dos outros estados do Submédio e Baixo São Francisco.

Os conflitos causados pela invasão da agropecuária, desde os anos 1970, no que eram os territórios tradicionais das comunidades que habitam o Cerrado, têm sido pauta de uma intensa discussão, e de dezenas de audiências públicas. A gravidade destes conflitos é de conhecimento regional, estadual, nacional e até internacional. Contudo, ao longo de décadas o agronegócio nunca assumiu a responsabilidade por sua nefasta atuação, alicerçada num tripé que tem como eixos centrais: a invasão de terras públicas por meio da grilagem e da pistolagem; o uso de dinheiro público para implantação de megaestruturas e de monoculturas de grãos e pecuária bovina; o uso irresponsável dos bens naturais, bens comuns, com impactos irreversíveis sobre o ambiente, em especial, sobre a água e a biodiversidade, além de imensuráveis impactos sociais.

A ação do povo de Correntina não é de agora. Assistindo à sequência de morte de suas águas essenciais, diante do silêncio das autoridades, ações do tipo e outras vêm sendo feitas há mais tempo. Em 2000, populares entupiram um canal que pretendia desviar as águas do mesmo rio Arrojado agora ameaçado pelas fazendas no distrito de Rosário. O canto fúnebre das “Alimentadeiras de Alma”, antiga tradição religiosa de rezar pelos mortos, passou a ser realizado para chamar a atenção para a morte das nascentes e rios às centenas na região. Romarias com milhares de pessoas vêm sendo feitas nos últimos anos em cidades da região em protesto contra a destruição dos Cerrados.

As ações do agronegócio possuem a chancela do Estado baiano e brasileiro, que age como incentivador e promotor, é insuficiente ou omisso nas fiscalizações e tem sido conivente com a sua expansão por meio da concessão de outorgas hídricas e licenças ambientais para o desmatamento, algumas sem critérios bem definidos. Estes critérios que vêm passando por intensas flexibilizações com as mudanças radicais na legislação ambiental. O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos – INEMA concedeu à Fazenda Igarashi, por meio da Portaria nº 9.159, de 27 de janeiro de 2015, o direito de retirar do rio Arrojado uma vazão de 182.203 m³/dia, durante 14 horas/dia, para a irrigação de 2.539,21 ha.

Este volume de água retirada equivale a mais de 106 milhões de litros diários, suficientes para abastecer por dia mais de 6,6 mil cisternas domésticas de 16.000 litros na região do Semiárido. Agrava-se a situação ao se considerar a crise hídrica do rio São Francisco, quando neste momento a barragem de Sobradinho, considerada o “coração artificial” do Rio, encontra-se com o volume útil de 2,84 %. A água consumida pela população de Correntina aproximadamente 3 milhões de litros por dia, equivale a apenas 2,8% da vazão retirada pela referida fazenda do rio Arrojado.

Alegar que as áreas irrigadas no Oeste da Bahia representam apenas 8% da região, ou seja, 160 mil hectares num universo de 2,2 milhões de hectares, não minimiza seus impactos. Megaempreendimentos e suas obras de infraestrutura em plena construção com vistas à expansão das áreas irrigadas determinam uma rota de cada vez maior devastação. Alguns exemplos: Fazenda Santa Colomba, em Côcos, Fazendas Dileta; Celeiro e Piratini, em Jaborandi; Fazendas Sudotex, Santa Maria e Igarashi, em Correntina. Algumas destas fazendas estão construindo centenas de quilômetros de canais, dezenas de reservatórios (piscinões), perfuração de centenas de poços tubulares e instalação de centenas de pivôs. Quanta água está sendo comprometida com tudo isto? Se a irrigação não fosse uma tendência regional, como explicar tantos investimentos neste modelo de agricultura? Comitês e Planos de Bacia e outras medidas no campo institucional, antes promovem esta rota insana, do que preservam os bens comuns da vida, hoje e de amanhã.

A ganância do agronegócio e as conveniências dos que representam o Estado são os responsáveis pelo desespero do povo. Não há ciência no mundo que possa estimar um valor monetário para o rio Arrojado, e isso o povo de Correntina parece compreender bem. Os próceres do agronegócio agem com hipocrisia e continuam se negando a assumir o passivo socioambiental existente no Oeste Baiano. Não resistem a uma mínima comparação com o modo de produzir dos pequenos e médios agricultores, que fornecem os alimentos diversos que a população consome com impactos infinitamente menores e muito mais cuidados de preservação. Não há como evitar a pergunta: os equívocos dos processos para outorgas hídricas e licenciamentos ambientais e a falta de fiscalização eficiente dos órgãos responsáveis são garantias para a legalidade e legitimidade do agronegócio?

Diálogo com os representantes do agronegócio tem sido um simulacro de democracia e honestidade.  Na audiência pública havida em Jaborandi, no dia 27/10/2017, para discutir a questão das águas, outorgas e legislação ambiental, com interessados dos municípios de Jaborandi, Coribe e Correntina, populares foram impedidos de questionar a tese, na ocasião defendida por conhecido cientista aliado do agronegócio, de que não há relação entre a ação humana e as mudanças climáticas.

Flagrantes contradições do modelo de desenvolvimento regional são inúmeras e precisam ser evidenciadas. Por exemplo, a de que é muito maior a área preservada de Cerrado em relação à explorada. Omite-se que as áreas de Reserva Legal das fazendas do Oeste da Bahia estão sendo regularizadas por meio da “grilagem verde” sobre os territórios das comunidades tradicionais, e que a função ecológica cumprida pelas Áreas de Preservação Permanente – APPs, aos longo dos cursos d’água, nas áreas de descarga, são diferentes das funções ecológicas que cumprem os chapadões responsáveis pelo abastecimento do aquífero Urucuia, áreas de recarga, que já foram dizimadas pelo agronegócio.

A luta em defesa da vida mais uma vez é marcada pelo protagonismo popular de quem faz com as mãos a história e sabe que a água não é mercadoria, como quer convencionar o agronegócio, inclusive utilizando-se da Lei 9.433/1997, a “Lei das Águas”. As águas do rio Arrojado abastecem comunidades centenárias e não podem servir apenas aos interesses dos irrigantes como o grupo Igarashi, que chega à região com a má fama de ter que migrar da Chapada Diamantina, uma das regiões da Bahia que sofrem com a crise hídrica, em especial, na bacia do rio Paraguaçu, justamente por conta dos impactos de sua exploração. Os conflitos ambientais parecem não findar com o caso das fazendas deste grupo, pois esta é apenas uma fazenda num universo de inúmeras do Oeste da Bahia. Tudo indica, portanto, que o cansaço do povo frente ao arrojo do agronegócio e ao descaso das autoridades e a urgência da defesa da vida seja o argumento que impõe esta reação.

Deste modo e diante da notória crise hídrica, somada à irresponsabilidade arrogante do agronegócio e à incompetência do Estado, tal cenário coloca o povo em descrença e desespero, ao ver o rio Arrojado, base para sua convivência e modo de vida, com tamanhos sinais de morte, assim como inúmeros riachos, nascentes, veredas e rios da região. E, então, partem para alguma reação concreta, que chame a atenção dos responsáveis públicos e privados. Não há palavras para descrever o sentimento coletivo que tomou conta do povo de Correntina, que num ímpeto de defesa agiu para defender-se, pois sabe que se não mudar o modelo de “desenvolvimento”, baseado no agronegócio, estarão comprometidas as garantias de vida das populações atuais e futuras.

Novembro de 2017.

Agência 10envolvimento

Articulação Estadual dos Fundos e Fechos de Pasto da Bahia

Associação de Advogados/as de Trabalhadores/as Rurais da Bahia – AATR/BA

Coletivo de Antônia Flor – Assessoria Técnica e Popular em Direitos Humanos

Comissão Pastoral da Terra – CPT/BA

Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP/MG

Fundação de Desenvolvimento Integrado do São Francisco – FUNDIFRAN

GeograFAR/UFBA

Levante Popular da Juventude

Licenciatura em Educação do Campo: Ciências Agrárias/UFRB

Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST

Movimento dos Pequenos Agricultores – MPA

Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB

Movimento Estadual dos Acampados, Assentados e Quilombolas da Bahia – CETA

Pastoral da Juventude do Meio Popular – PJMP – Diocese de Bom Jesus da Lapa

Pastoral do Meio Ambiente – PMA – Diocese de Bom Jesus da Lapa.

Programa de Pós- Graduação em Educação do Campo/UFRB, Mestrado Profissional em Educação do Campo

Rede Nacional de Advogados e Advogadas Popula

Oitava Noite do Novenário.

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O subtema da penúltima noite do novenário de Nossa Senhora do Rosário foi “No Brasil, quero ver o direito brotar e correr a justiça qual riacho que não seca”. Noiteiros: Pastoral da Criança, Pastoral da Pessoa Idosa, Pastoral Carcerária, profissionais da saúde, grupo AA, CAPS, Vicentinos e quadras 07 e 10. A reflexão foi feita por Pe. Josemar Mota.

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Refletindo um trecho do Evangelho de Lucas (4, 14-21), Pe. Josemar afirmou que todo o projeto de Jesus se resume na promoção da dignidade da pessoa humana. Dessa forma, é dever de todo cristão assumir este projeto, pois ao ser batizado, ele recebe o Espírito Santo de Deus para dá continuidade a missão libertadora de Jesus.

Mas em que consiste a missão de Jesus?, questionou Pe. Josemar. Ela consiste em anunciar a Boa Notícia aos pobres, proclamar a libertação aos presos, recuperar a vista dos cegos, libertar os oprimidos e proclamar o ano da graça do senhor. É por isso que a Igreja faz uma opção preferencial pelos pobres, pois são eles os preferidos de Deus, aqueles que mais necessitam de justiça e de direitos.

O que deve distinguir a comunidade católica é seu compromisso com a justiça e com o direito, destacou Pe. Josemar. Ele disse também que devemos nos organizar, enquanto sociedade, nas associações, sindicatos, pastorais e movimentos sociais tendo em vista a promoção da justiça e do direito.

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Maria é fonte de inspiração na luta por uma sociedade justa, fraterna e solidária, pois no seu canto Ela garante que Deus realiza proezas com seu braço, dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos, eleva os humildes, aos famintos enche de bens e despede os ricos de mãos vazias.

Texto: Marcos Paulo.

Fotos: Tovinho Régis

Veja mais fotos:

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Sexta noite de Novena de Nossa Senhora do Rosário

Sexta Noite - Novena de Nossa Senhora do Rosário

Aconteceu nesta quinta-feira, 26/10, a sexta noite do novenário de Nossa Senhora do Rosário, padroeira de Remanso.

Tema da noite: Jovens, escutem o grito da Terra e dos pobres que sofrem com os desequilíbrios ecológicos! O celebrante foi o padre Cícero Diego, coordenador do Setor Diocesano da Juventude, da Diocese de Juazeiro, Bahia.

Noiteiros: Funcionários Públicos, Jovens, Grupo de Capoieira, SCFV, kEstudantes, Grupo Demolay, Grupo Filhas de Jó, Grupo Hip-Hop, Professores, Quadra 08 e Vila Celso Campinho.

Sexta Noite - Novena de Nossa Senhora do Rosário

Foi uma noite com grande participação da juventude remansense, com apresentações ligadas ao tema da noite feitas pelas jovens estudantes da Escola Girassol.

Vejam mais algumas fotos, todas de Tovinho Régis:

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Da Ditadura Civil para a Militar

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Roberto Malvezzi (Gogó)

Antes do golpe de 2016 sobre a maioria do povo brasileiro trabalhador ou excluído, já comentávamos em Brasília, num grupo de assessores, sobre a possibilidade de uma nova ditadura no Brasil. E nos ficava claro que ela poderia ser simplesmente uma “ditadura civil”, sem necessariamente ser militar. Entretanto, como em 1964, ela poderia evoluir para uma ditadura militar. Naquele momento pouquíssimos acreditavam que o governo poderia ser derrubado.

Já escrevi sobre esse assunto antes do golpe de 2016, mas agora o assunto se atualizou.

Para mim não há dúvida alguma que estamos em plena ditadura civil. É um grupo de 350 deputados, 60 senadores, 11 ministros do Supremo, algumas entidades empresariais e as famílias donas da mídia tradicional que impuseram uma ditadura sobre o povo. As instituições funcionam, como dizem eles, mas contra o povo e apenas em favor de uma reduzidíssima classe de privilegiados brasileiros. Claro, sempre conectados com as transnacionais e poderes econômicos que dominam o mundo.

Portanto, nós, o povo, fomos postos de fora. Tudo é decidido por um grupo de pessoas que, se contadas nos dedos, não devem atingir mil no comando, com um grupo um pouco maior participando indiretamente.

Acontece que o golpe não fecha, não se conclui, porque a corrupção, velha fórmula para aplicar golpes nesse país, hoje é visível graças a uma mídia alternativa presente e cada vez mais poderosa. E a corrupção está em todos os níveis da sociedade brasileira, sobretudo nos hipócritas que levantaram essa bandeira para impor seus interesses.

Mas, a corrupção é apenas o pretexto. Segundo a visão de Leonardo Boff, o objetivo do golpe é reduzir o Brasil para 120 milhões de brasileiros. Os 100 milhões restantes vão ter que buscar sobreviver de bicos, esmolas e participação em gangs, quadrilhas e tráfico de armas e drogas.

Então, começam aparecer sinais do verdadeiro pensamento de quem está no comando, uma reunião da Maçonaria, um general falando a verdade do que vai nos bastidores, a velha mídia com a opinião de “especialistas”, nas mídias sociais os saudosos da antiga ditadura dizendo que “quem não é corrupto não precisa ter medo dos militares”.

Enfim, estão plantando a possibilidade da ditadura militar. Para o pequeno grupo que deu o golpe ela é excelente, a melhor das saídas. Nunca foram democráticos. Não gostam do povo. Inclusive nessa Câmara e nesse Senado, poucos vão perder seus cargos ou ir para a cadeia.

O pior de uma ditadura civil ou militar é sempre para o povo. As novas gerações não conhecem a crueldade de uma ditadura total.

É de gelar a alma o silêncio da sociedade diante das declarações do referido general.

Doze piadas de 2016 e seus humoristas

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Roberto Malvezzi (Gogó)

  1. Golpista presidente (Narrada por Michel)
  2. Não foi golpe (Aécio, Serra e FHC)
  3. O Brasil já melhorou muito (Cristovam Buarque sobre governo Golpista)
  4. Por minha família, minha pátria, minha conta na Suíça, medo da Lava-Jato, voto sim (360 picaretas da Câmara dos Deputados e mais 61 Incitatus do Senado)
  5. PowerPoint do Dallagnol  (Por ele mesmo)
  6. Pedalinho do Lula ou da Marisa (Jornal Nacional)
  7. Palestra sobre ética no farisaísmo bíblico (Sérgio Moro, cachê de 90 mil reais)
  8. Imparcialidade da Mídia Corporativa (Famílias Marinho, Frias, Mesquita e Civita)
  9. Derrubamos o PT e acabaremos com a corrupção, os impostos e o desgoverno (Paulo Skaf, Paulinho da Força e manifestantes de verde e amarelo da Paulista e Copacabana)
  10. Autocrítica do PT (Direção Nacional)
  11. Supremo Tribunal Federal (Por Gilmar Mendes)
  12. Os brasileiros vão se aposentar no túmulo (Eu)